Ponto de partida

Uma linha de luz arqueada
Flutua suspensa
Na extensão do braço, onde a força
Abandona o corpo

O grito de vidro soprado vazio
Impera calado
Quando o silêncio reflecte a voz
Da sombra quebrada

Por passos
Que se afastam e convergem

Ao ponto onde a tristeza absorvida
É libertada
No instinto irracional e separador
De um adeus.


Alguém inventou a luz

No início não havia o nada
Estava lá tudo
O verbo
O fogo, o ar, a água e a terra
Até os homens

Havia silêncio
E o verbo era respeito
Escuridão
E os homens eram um só
De mãos dadas
Para não caírem no tudo

Depois alguém inventou a luz
E acendeu-a
Sobre todas as coisas
Sobre todos os seres
Até sobre os homens

Então os homens puderam ver o horizonte
Abraçaram o desejo de tudo
E afastaram-se do mundo

Transformaram o fogo
O ar, a água e a terra
Até outros homens
Em verbo maltratado

E o nada nasceu
No coração dos homens.

Do lugar de onde vim

Do lugar de onde vim, o tempo afastou-me da morte  
No passado, não posso morrer.
Os que ficaram e nunca me sentiram
Podem pensar o infinito sobre quem fui e aquilo que dei
Ainda que presos à dúvida se terei mesmo existido
E se a memória que de mim guardam é real.

Calmaria

Dos teus brilhos, caminho meu
Podia dizer, se o sentisse
Que são jardins feitos de sol
Ou ondas em verde manto que o vento afaga
Podia perder-me, se quisesse
Nas formas distantes do tempo
E dar-me todo, tempestade

Mas os teus brilhos, olhos meus
São causas e efeitos, são calmaria
Por eles o tempo pára, eu bem sabia
São a pedra onde me sento
E turbilhão, sou tudo o que me devo

É nos teus brilhos que me perco
No simples olhar para uma flor
E não desejo, sequer procuro outro caminho
Deixo-me estar assim quieto
Até que a flor seja caminho e seja brilho
Até que seja, por fim, beleza
E inteira, tome conta da paisagem
E tome a paisagem, conta de mim.

Cada noite é um poço onde o dia vai matar a sede

No campo o dia é quente
E quente, trago a alma à realidade dos factos
O corpo, amarrotado de dormir, fica pendurado no roupeiro

Cada noite é um poço onde o dia vai matar a sede

No quarto a noite é fria
E frio, visto o corpo à imaginação do sono
Enquanto a alma vai fazer castelos na praia dos sonhos.

No tecto da imaginação faltam telhas à realidade
O céu, azul durante o dia ou constelado de noite
É oferta da alma para um corpo cansado de existir
E tudo é sonho na realidade que a vida veste
Quando se acorda para morrer.
No campo os dias são quentes
E frias, são as noites no meu quarto.

Poema que só quer ser

O poema não quer saber da poesia para nada
Nem do poeta que o escreve
Assim que nasce emancipa-se, corta os laços da filiação
E tenta encontrar um lugar no mundo
Visibilidade, espaço, com sorte, fama

O poeta erra ao querer defender o poema
Ao tomar-lhe as dores
Ao tutela-lo até ao último dia que vive
E depois, quando morre
O poeta espera que o poema lhe vá levar flores à campa
E que não deixe esquecerem-lhe o nome

O poeta erra por pretensão
Porque quer brilhar mais que o poema
Mas o poema, órfão por opção, não se importa
Pois sabe que não está nas mãos do poeta
Ser adoptado pelo mundo ou não.

O vestido branco e dourado

Anda por ai um vestido branco e dourado
Que alguns juram, pelo deus dos vestidos, ser preto e azul
E foi um caso que gerou grande falatório
Foi exaustivamente estudado por doutores da saúde dos olhos
E por cientistas da ciência das cores
E tiveram que parar muitas guerras
E muita gente ficou por morrer
Para apurar quem tinha razão

O que me importa é que o dito vestido
Assenta bem a quem o veste
E não pensei mais sobre isso
Porque isto de ver com os olhos
Cada um vê a cor que consegue
Dizem que é genético e que depende do ângulo de luz

Ainda hoje choveu outra vez
E já há uns dias que não chovia por estes lados
Já andavam pessoas à fresca com a pele ao sol
E sempre que está sol
A vida fica mais leve
Sem ângulos suspeitos e sem cores duvidosas
Com um pouco mais de luz sobre todos os despidos
Sem genética.

O tempo faz destas coisas à vida

Há já muito tempo que não escrevo um poema
E não me tem feito falta alguma
Tenho acumulado, neste espaço de tempo, dias vazios
Leveza nos ossos, espaço no tempo e folhas em branco
E já são tantas
Que podiam causar-me diferença
Braços cruzados sobre a barriga à míngua de letras
Ou ter fome de as escrever
Com qualquer coisa muito açucarada.

Quando o tédio da vida corre diabético nas veias
O melhor é não escrever indigestões
E adoptar uma dieta de versos.

Há já muito tempo que não escrevo um poema
Tenho acumulado folhas em branco
E dias vazios, imaculados
E são tantos
Que se os escrevesse agora, já fora de prazo
Tinha que joga-los no lixo com as letras amarrotadas
Impróprios ao consumo de quem têm muito apetite.
O tempo faz destas coisas à vida e à poesia também.

Isto não é uma despedida qualquer

Doeram-me mais tristezas
Do que dias tristes que tive
Doeram-me todos os dias
E todos os que tive, foram felizes.

Isto de ser feliz é um processo complicado e lento
A vida deve ser entendida como parte inteira da dor
Não existe dor sem vida
E do mesmo modo, não existe vida sem dor
E aceitar este facto é querer ser feliz.

Tenho visto muito
Aprendido mais
Tenho aceitado tudo
Quando faz calor, ponho-me ao sol e sabe-me bem
E penso, que a vida não é uma despedida qualquer.

Ontem ao contemplar o céu
Passou um pombo cinzento a voar 
Foi pousar no galho mais alto da árvore mais alta que havia no monte
E esta imagem tem mais valor do que aquilo que tentei aqui dizer.
Tudo na vida, assim como a vida, é sempre metade de algo...
Só me falta morrer para ser completo.

Ser grande é não ter tamanho

As pessoas podiam ser grandes
Deviam ser, sem reservas, maiores do que o corpo que vestem
As pessoas deviam ser grandes
E ser grande é não ter tamanho.

As pessoas compram casas grandes, paredes meias com o corpo
Para mostrarem que o seu corpo é grande
E pensam que isso é importante

Mas somos todos pequenos por fora
E o tamanho que as pessoas pensam que têm
É só o tamanho das coisas que mostram
E coisas assim têm a alma pequena.

As pessoas compram casas grandes
Porque não sabem, que são maiores que as casas que compram.

As pessoas podiam ser grandes
E ser grande, é não ter tamanho por dentro.

A segunda coisa mais estúpida do mundo

A segunda coisa mais estúpida do mundo é discutir com alguém por assuntos ou temas nos quais não acreditamos, além de ser uma tremenda perda de energia, reduz, ao tempo de vida útil no mundo de ambos os intervenientes, o tempo gasto na discussão, o que torna a segunda coisa mais estúpida do mundo, na coisa mais inútil do mundo.

Para que conste, a coisa mais estúpida do mundo, é o pensamento. Foi o pensamento, a coisa mais estúpida do mundo, que me levou à segunda coisa mais estúpida do mundo, a ideia exposta neste texto, que por sua vez, é a coisa mais inútil do mundo. O que me leva a pensar que estou a perder o meu tempo a escrever esta nota, também ela estúpida e inútil.

A coisa mais estúpida do mundo

A verdade, é que às vezes pela simples razão de dizer o que penso, sinto-me a pessoa mais estúpida do mundo. Por causa disto, outras vezes não o digo e, ao fazê-lo, sinto-me a pessoa mais estúpida do mundo, o que também é verdadeiro. De qualquer modo e para o efeito, é como se pensar e o simples processo de fazê-lo, fosse a coisa mais estúpida do mundo. Por esta razão, a de me sentir a pessoa mais estúpida do mundo, é que insisto na estupidez de continuar a pensar, e isto é simples e verdadeiro.

Metamorfose

É o meu pensamento que cria e faz girar o mundo
E isto pode parecer uma ideia irracional e tola
Mas o mundo gira e serve-me de prova.
Criei tudo o que alguma vez foi criado e visto
E já imaginei tudo o que ainda não se realizou.
Se existem continentes e oceanos
É porque os moldei em toda a extensão da mente
Nada ficou ao acaso e nada foi desconsiderado
Sou, pensamento, o deus das limitações materiais.

O meu universo é uma sopa cósmica amorosa
Onde criei um mundo para morar igual à minha casa corpo
Porque o meu corpo é a minha casa
E à sua semelhança, existem pessoas que são crianças pessoas
Que são mágicas e eternas
Conservam o dom da criação e imaginam mundos
Criativos universos, únicos como elas são.

É a minha vida que dá vida ao mundo
Cada vez que abro os olhos
Nasce uma criança num qualquer planeta distante
E fico lá, a acalmar-lhe as primeiras dores no corpo
Até que cresça e saiba andar sozinha.
A vida transcende-me e permeia o universo.
Sou o deus das minhas limitações terrenas.
Metamorfose sem existência
Agora e depois.

Celebração

Existem dias que se colam à sola do sapato como merda de cão
Por mais que raspe com o pé no passeio
Que esfregue energicamente com a sola na relva do jardim do vizinho
O cheiro da merda paira onde quer que meta o nariz

Existem noites que parem o mesmo dia durante muitos dias.

Chuva de pedra e frio de gelo nos olhos defuntos
Vento nortada de passos sem norte que vêm para sul
Celebrar a festa dos mortos no dia do meu aniversário

Mesa posta, velas acesas e as cadeiras todas vazias
Só compareceu quem foi convidado, o único penetra, sou eu.
Existem dias que têm de ser celebrados todas as noites.