Dual

Não sou eu o que aqui escreve
É o outro, o real
O que agora me conduz o pensamento.
É outro que escreve aqui
O da ciência exacta da vida, o do materialismo concreto
Poeta dos poemas por escrever
Ele, o que queria ser e não existe.

Ele, é o outro, o que finge
É o que recebe o ordenado ao fim do mês
Que o obriga a fingir sorrisos o mês inteiro
E o meu pasmo por ele é grande
Põe-me espanto no pensamento
E gargalhada na voz
Mas, por maior que seja, por ele, o meu pasmo
É maior por mim o pasmo dele 
Pois o desejo de como eu ser, mas não ter coragem
É o engano de ser o outro e fingir.

Dual
Fuga e percepção.


O pensamento maltrata o poema

O pensamento maltrata o poema
Tortura a palavra
Intelectualiza, à força, a ideia
Que era simples e pura
Formosa e sem forma
Tornando-a mecânica e dura

[Estende-se com lógica pela linha do verso
E mata a rima]

Então, o poema mente, por vezes
Outras, assume o pecado
Mas nunca se rende
Nunca recua na folha vazia
E no fim, aos olhos de todos
Depõe feito réu
E é declarado culpado. 

Casca de noz

Se soubesse escrever melhor os meus pensamentos
Se conseguisse traduzi-los em palavras
Acompanha-los sem entretanto perdê-los
Escreveria mais e certamente melhores poemas

Injustamente para a realidade do poema
Este conhece-me apenas da noz, a casca rude e dura
E quanto ao miolo do fruto, rico, nutrido
Fica todo para meu proveito
Só eu posso aprecia-lo, em puro acto egoísta 
Contemplar-lhe a forma, tocar-lhe a textura
Só eu posso imaginar-lhe o gosto antes de trazê-lo à boca
E nesta realidade minha faz-se justiça ao poema
Pois ao preparar-me para comer o fruto, deixo caí-lo no chão
Perdendo-o irremediavelmente
Para o imenso abismo que separa
O pensamento de qualquer acção

Se soubesse escrever melhor
Se conseguisse acompanhar os meus pensamentos
Traria à realidade do poema
Todo o espanto que neles e em mim habita. 

Sempre que penso

Sempre que penso pensar em mim
Construo uma casa grande para lá morar
Cheia de coisas belas e móveis castanhos envernizados
Que falta me fazem quando me penso pensamento

No fim, quando lhe ponho as cortinas nas janelas
Uma carpete com motivos no chão da sala
Quando torno a casa confortável e acolhedora
Não me vem vontade de morar nela.

Eu, que de real sou apenas hipótese
Antecâmara perceptiva e abstracta
Onde me gero esboço robusto, pau para qualquer obra pensada
E, se a vertente pender à duvida
Viverei o que vivo ou vivo o que irei viver?
Estudo-me, analiso-me e antecipo o momento, todos eles

Mas, o pensamento cansa-me de tanto o pensar cansado
Cansado da casa e dos acabamentos cuidados
Cansado da importância dos pormenores
Cansado de lhe dar liberdade, aprisionando-me pensamento
Então, o tamanho da casa grande torna-se pequeno
E o motivo da carpete deixa de ter um motivo.

O pensamento acabado e final, é cansaço e prisão
É a casa onde me ponho à janela a ver-me aqui
E aborrecido, perco a vontade de morar nela.

Paisagem

Amanhece o dia calmo e a calma em mim
O sol nasce e cai desfeito na encosta
Os ramos das árvores fingem um movimento artístico e suave
Acho que estão a fazer vontade ao vento
E a pôr sombras no chão e isto fica-lhes bem

Já o manto é verde e o verde do manto de vários verdes
E vejo-os a todos como um só manto
E tudo na paisagem se compõe em equilíbrio
Tudo na natureza se compõe e tudo se equilibra
E podia ser puro até
Se eu não estivesse aqui, também a fazer paisagem.

De que vale escrever um poema de amor

De que vale escrever um poema de amor
Compor um chorrilho de enfeites
À mulher sensual, à noite perfeita
Às lágrimas da lua ou aos beijos de mel
Para cair na mesmice e no erro
Quando o poema sequer é sincero
Não com a mulher, não com a noite
Não com as lágrimas e nem com os beijos
Mas com a natureza do amor
Que é sentimento perfeito
Já o poema, não.

Haverá sempre outra musa
Outra noite, outras lágrimas, outros beijos compostos
Haverá sempre outro que escreva os enfeites
E outros chorrilhos com mais fingimento
Na falsidade das letras com que escreve o poema
Pois é sentimento imperfeito
Já o amor, não.

O amor, não é da musa nem da noite
Sequer do poema
O amor é de todos, é para todos
É sentimento perfeito
Já o do poeta, não
Logo, não o pode escrever.

Nas traseiras da minha casa

Nas traseiras da minha casa
Há um pedaço de terra mal-amanhado
Ao abandono, onde de forma natural
O mistério da vida é, facilmente, desvendado.

Este pequeno pedaço de terra, nas traseiras da minha casa
É o universo inteiro, inexplorado
E a querer-lhe mal ou bem, não há ninguém
Pois ele é virgem e intocado
Nele existe uma só mecânica que mantém a vida
E que respeita a mecânica anterior que a concebeu
Sendo esta a lei, única, a ser cumprida

Facto simples de confirmar
Ao olhar o fruto que se desprende da árvore e cai no chão
E fica ali, o tempo que lhe comporta a existência
A fazer adubo e a enriquecer a terra da sua mãe.

Repetição

Repetição… repetição…
A repetição é a forma de trabalhar do universo
Junta a tudo o que já existe, um pouco de movimento
E repete, outra vez, a repetição anterior

A todas as manhãs sucedem-se, repetidamente, tardes
A todas as tardes sucedem-se noites
E esta sucessão não é novidade para ninguém
Assim como não é novidade, o nascer do sol em cada dia

Mas cada nascer do sol tem também intenção
Um movimento com direcção, que impulsiona
E cria atrito, química e reacção
Tornando único o momento em que acontece
Em que a vida nasce com ele, toda ela acaso, instinto e forma  
Toda ela descoberta e novidade

Janela aberta para o sonho
Ampla visão da realidade
Desfocada entre a luz e a sombra, entre o dia e a noite
Entre uma hora e outra
Ambas criação, ambas ilusão
E lugares comuns onde tudo acontece.

Forma de cair

Não há outra forma de cair
Senão a forma que a vida mostra
Nem outra maneira de viver
Do que aquela que cair ensina
Quem isto entende, tem como endireitar as costas
Seguir e levantar a cabeça
E depois da queda, o momento em que ergue o corpo
É todo ele força, movimento e vida

Não se pode viver curvado
Com uma visão deformada das coisas
Abrir os olhos e acordar, é natural até morrer
Mas acordar não é viver
Nascer é estar vivo, até porque nascer todo o homem nasce
Só que estar vivo não é viver

Viver é movimento somado à vida, à existência
É atrito, sentimento, é uma química que acontece na alma
De alguém que cai e depois se levanta
E sem mágoa, cresce pelas cicatrizes no corpo
Para elevar o patamar do mundo.

Os bons poemas são túmulos de quem os escreve

Ano após ano, década após década, século após século
Mesmo que transformados em fósseis pela eternidade
Serão mais que os ossos que suportam um corpo
Mais que o cajado do pastor de rebanhos
E mais que o pastor
Quando este ainda levava os pensamentos ao campo
E no campo dava-lhes a forma de rebanhos
E alimentava-os de natureza e de tudo o que via.
Mas, quando o pastor morreu
O cajado partiu-se e o rebanho perdeu-se no campo.

Depois do movimento artificial do universo
Da matéria dos corpos, dos prédios, depois da pulsação da cidade
E da respiração do campo
O que foi vida, morte, o que foi apenas pensamento revelado
Agora, é só o cemitério de tudo o que foi

Agora, a eternidade toca-me a ponta dos dedos
E encontro por acaso o rebanho espalhado pelas folhas do livro.


Nota: para Fernando Pessoa (Alberto Caeiro) e para o seu "O Guardador de Rebanhos"

A simplicidade de um sentimento

Como poderia competir com as flores dos teus pretendentes
Com os seus beijos de veludo 
E com os seus versos açucarados. 
Não tenho palavras doces para te conquistar
Presentes para te oferecer
Nem dinheiro para te levar ao restaurante 
Onde, durante um jantar romântico
À luz trémula da minha voz em chamas
Diria que te amo.

E isto é apenas a ilusão da tua inocência 
Presa a estes versos que não vais ler
Porque no teu coração mora uma primavera campestre
Sem estação nos meus versos rudes e toscos
E os teus olhos não estão habituados a tanto cinzento
À cor das minhas construções citadinas 
Que parecem arruamentos complexos 
Com bancos de pedra que nascem voltados para jardins de cimento
Onde raramente te sentas
Com medo de perder a fantasia nos olhos. 

Mas, se viesses mais vezes 
Irias aprender a ler a minha paisagem
A simplicidade com que transforma tudo em natureza
E sentirias essa simplicidade como amplexo 
E que ela existe dentro de todos os homens
Camuflada por casas cinzentas
Com antenas de muitas cores a enfeitar os telhados
Que mais parecem poemas de amor.
Se percorresses mais vezes o meu pensamento
Irias aprender a ler a paisagem
A descobrir os meus versos toscos e rudes
E quando levantasses o véu que encobre esta realidade 
Encontrarias a simplicidade de um sentimento:

[Amor]

Esclarecimento

Se alguém percebe de alguma coisa, sou eu.
Falo com a mesma propriedade no pôr-do-sol de Marrocos
Como no pôr-do-sol da minha aldeia
E sei bem que são diferentes
Sendo que as diferenças são todas minhas.

É também assim que me vejo
Vaga sentença à espera de uma confirmação qualquer
Consciente que o meu entendimento sobre o sujeito
É tão vago como a percepção que tenho do mundo
Ciente que as minhas dúvidas 
São eus diferentes de mim
Vagamente esclarecidos sobre tudo aquilo que sou.

Imaginador

E por não te ver, não me perco a imaginar-te.
Paisagem distante, pensamento também distante
Que por ser longínquo, nada é aqui
E nele, nada sou, senão a névoa que o envolve.

Porto imaginário onde se apronta um barco cheio de si
Sem tripulantes nem passageiros
Ilusão da consciência de ser barco e de existir
De real, nada é e nele sou nada ao leme
Cansado da viagem que não fiz
Com saudade da terra de onde ainda não parti.

Não sou mais que um projecto prestes a deixar o papel
Com a consciência futura da obra feita
E esta frase dói-me como se me arrancassem a pele
Expondo a ruína toda que está por baixo.

Só a verdade liberta a dor, mesmo que doa.
Liberto-me dos conceitos, dos preconceitos
Permito-me não ser a consciência colada ao nome
À pessoa por quem me conheço
Ao meu reflexo no espelho
Para ir além do sonho e viver

Navega à deriva barco de pele
Sente a angústia de perder o vento
E sem porto, ou amarra de corpo quente
No fim, naufragas, também em pensamento.

Castelo de areia

Castelo de areia ou pedaço de praia
Rebentação ou onda do mar
Destruição ou renovação existencial

Tudo o que de algo se forma é só pensamento
E eu, de longe, sentado a olhar para ele
Com o apreço que se tem a um irmão
Que por ser meu, quero-lhe bem

Vou só comprar cigarros e volto já
Isto é o que a mnha vida disse à morte
Ao sair de casa, tudo é ânsia e vontade de fumar
Mas o caminho é um prado de muitos verdes 
E, sem pressa, perco-me a olhar para ele
A sua forma e as suas cores, não passam de pensamentos
E o tempo que me demoro, não dura mais do que uma estação     

Mente ou quintal da consciência 
Eu ou o sopro da humanidade

Redenção 
A beleza das coisas é uma janela aberta para o infinito


[...]

O destino não é o cais

Mar…
O destino não é o cais
O destino mar, é o barco
Pois que o cais é de chegada e é de partida
É tão destino como é origem
Só o barco, por vontade ou por impossibilidade, pode ficar
E tu mar, tu és a vida
E eu, viagem.

Se o mar não tiver ondas, ainda assim é mar
Mas as ondas, por si mesmas não existem.
A onda é destino, viagem
Manifestação de uma entidade que a própria desconhece
E do instante em que se afirma onda
Não é mais nada, até se desfazer de novo em mar
Depois, mesmo sendo da mesma água, já outra onda
É, para ela, a primeira vez que é onda e viagem.

Mar…
O destino não é a praia
O destino mar, é a onda
E tu, tu és a vida
E eu viagem.

Lembrar-me da chuva não chega

A chuva nasce na pele da terra
Que nasceu no umbigo do universo
Que nasce na menina dos meus olhos
E de repente, isto é tudo o que me lembro.

Já andei à chuva muitas vezes e molhei-me sempre
E molhar-me sempre que chove é o propósito de andar à chuva
É forma de comunicar e sentir
É como ouvir com atenção a história de alguém que já viveu muito.
Molhar-me, é uma conversa íntima entre a chuva e a minha pele
E aquilo que a chuva me conta deve ser bom de aprender
Pois que a sensação não incomoda, nem é de frio
Mas é antes de calor e conforto de um abraço maternal

E de repente, dá-me saudades do beijo da minha mãe
E lembrar-me da chuva não chega
Ouvi-la bater contra o vidro é pouco
Vê-la cair é querer mais
E tenho que sair para a rua e senti-la na pele.

Para conhecer o mundo de verdade
Preciso misturar os sentidos com a realidade
E sentir a existência e o sentido de tudo
E fazê-lo, é uma forma de amar a natureza. 

A minha casa está vazia

A minha casa está vazia
Paredes brancas, despidas do que não se pode ver
Outrora medo a decorar as salas e os quartos.
A porta, sempre aberta, já não serve o propósito de a ter fechada
Já ninguém entra e sai por ela, seja por mim, ou por alguém
Porque a casa está vazia
Por dentro e por fora, está vazia a minha casa.

Solta-se do tecto uma espécie de humidade em tom de azul
Que empurra o ar, que toca o corpo, que toca o chão, que não toca em nada.
Pela janela, ao fim da tarde, entra uma luz que permeia e aquece o pó dos móveis 
E traz-me, com todo o vagar do mundo, silêncio até à mesa
Onde escrevo, sentado, a noite que há-de vir, também sentar-se a meu lado
E tudo se combina num misto de nada e de paz
Dando-me tempo e espaço
Para conhecer a casa que está vazia.

Poema e chuva

Enquanto, lá fora, chove despropositadamente
Tento escrever, nesta folha, um poema com muito propósito
Que seja algo mais que a explanação do pensamento
Mais que a resistência e que o atrito dos labirintos da mente
Tento escrever um poema que venha de dentro
E se cumpra inteiro, morrendo nos olhos de quem o lê

Se eu o escrever corpo, vida e cor
E me sentar à porta a olhar para ele
Será poema em tudo o que existe
Em tudo o que vejo, puro e livre, e aceito porque me é dado.
Sempre que o céu se curvar e tocar a terra
Por meio de brilho e chuva a salpicar as pedras
Desprender-se-á de mim sem choro e sem dor
Todo ele paisagem, perfeição e paz
Porque sendo céu, não é terra, e sendo terra, não é céu
Um equilíbrio que é bom de ver, sem que precise de pensar nele.
Ter-se-á então cumprido ao morrer-me nos olhos
Nascendo, sem esforço, no momento seguinte
Também ele, poema e chuva.

Perspectiva

Perspectiva
E visão
Metáfora onde me escrevo, circular e infinito
Mas por agora, sem espaço
Nas prateleiras eternas da existência de tudo.

De todos os momentos, tão iguais na razão de tempo
Traduzidos em vários pontos, como marcas feitas na vida
Escolho aquele, onde estanca e se aquieta o pensamento
E se alarga a alma, estendendo-se, por um plano sem medida

A previsão
Do tempo que falta
Ao tempo que me falta
É não saber o quanto, nem querer saber
Sabendo, que todo o tempo, depois do tempo
É meu, na minha inexistência


[...]

Debruçado sobre a janela

Debruçado sobre a janela, atento na natureza
E na simplicidade com que ela se manifesta em todos os momentos
Com a expressão de que existe, sem esforço, em si mesma
E isto é algo que me encanta quando o consigo realizar.

Tenho lugar sentado à janela do sonho
Passageiro oculto em viagem com vista para o tempo
O destino é além do campo e da visão, quando não há destino
Onde todos os pontos são pontos de encontro
Sem lugar específico e em todos os lugares
Sem forma definida e em todas as formas
Onde mentes se tocam num vácuo absoluto e vagaroso
E experimentam a totalidade do universo na universalidade do amor

Sou permeável como uma nuvem e nada absorvo
Nada me condiciona a forma
Apenas vejo e aceito a imagem do mundo que vejo
Como se apresenta, tantas vezes carregado e denso
Então, sem pensar, dispenso tudo o que vi
Sem me demorar em tempestades
Chovo tudo, com ligeireza, para o chão.

A realidade é uma farsa
O mundo gira e passa pela anarquia dos sentidos
E como o sentimos
Aquilo que aparenta ser
É na verdade um pouco menos de tudo
E muito mais de nada
Mas é sempre o mesmo, quer a janela esteja meia aberta
Quer esteja, meia janela fechada.

O plano

Têm-me dito, já muitas vezes
Que ando à deriva, que não sei o que quero fazer da vida
E que ando cá apenas a ver os comboios passar
Isto porque não tenho um plano ou um projecto para concretizar
Em resumo, têm-me dito, com convicção, que falhei
E que falhei com o acerto com que falha gente grande
(Falho comigo por falhar com o futuro)

Acho que só para andar por cá, deslumbrado como um menino
A experimentar o mundo, a ver beleza e novidade em tudo
Sem pensar amanhãs e futuros programados
Já valeu a pena ter nascido, chorado e aberto os olhos
E ter a consciência desta realidade
Vale mais que qualquer projecto de qualquer vida de sucesso

E há coisa melhor do que ver os comboios passar
Vê-los seguir com a vida toda que carregam dentro deles
E saber, sentindo, que tal como os comboios que passam
Também eu passo e levo a vida toda dentro de mim
E sigo leve e sem esforço pelo caminho da vida
Como seguem os comboios pelos carris
Até ao dia em que, por não conseguir continuar, irei parar
E o mundo terá de seguir sozinho
Porque o meu corpo, é só mais uma estação.

Se é estranho isto que digo
É porque a vida, é o que quero dela com o coração.
Ao falhar comigo, dispenso a obrigação de me cumprir
Ao falhar com o futuro, permito-me a não fazer planos
E realizo-me, assim, em cada momento que estou consciente.
Hoje,
Hoje,
É este o plano.

Viver é sair para a rua de manhã, aprender a amar e à noite voltar para casa

Continuo a ir e a voltar, a ir e a voltar outra vez e outra, durante muito tempo, e mesmo cansado, continuo a ir e a voltar e continuarei a ir e a voltar, até ter consciência que o ir e o voltar, é o mesmo que nunca ter saído. Até que se completem todos os ciclos individuais da compreensão do que é viver, continuarei a sair para a rua. Este ciclo de estar em casa e surgir a dúvida sobre o que há lá fora, ter curiosidade de conhecer e sair para a rua, ver, andar por todo o lado, cair, levantar-me e voltar para casa. Não ficar satisfeito e fazer tudo outra vez. Até aprender a amar o que há fora de casa como amo o que há dentro. E quando sentir este amor, porque é o mesmo, quando tiver consciência que tudo o que está na rua, sempre esteve dentro de casa, vou finalmente poder descansar.