A minha casa está vazia

A minha casa está vazia
Paredes brancas, despidas do que não se pode ver
Outrora medo a decorar as salas e os quartos.
A porta, sempre aberta, já não serve o propósito de a ter fechada
Já ninguém entra e sai por ela, seja por mim, ou por alguém
Porque a casa está vazia
Por dentro e por fora, está vazia a minha casa.

Solta-se do tecto uma espécie de humidade em tom de azul
Que empurra o ar, que toca o corpo, que toca o chão, que não toca em nada.
Pela janela, ao fim da tarde, entra uma luz que permeia e aquece o pó dos móveis 
E traz-me, com todo o vagar do mundo, silêncio até à mesa
Onde escrevo, sentado, a noite que há-de vir, também sentar-se a meu lado
E tudo se combina num misto de nada e de paz
Dando-me tempo e espaço
Para conhecer a casa que está vazia.

Poema e chuva

Enquanto, lá fora, chove despropositadamente
Tento escrever, nesta folha, um poema com muito propósito
Que seja algo mais que a explanação do pensamento
Mais que a resistência e que o atrito dos labirintos da mente
Tento escrever um poema que venha de dentro
E se cumpra inteiro, morrendo nos olhos de quem o lê

Se eu o escrever corpo, vida e cor
E me sentar à porta a olhar para ele
Será poema em tudo o que existe
Em tudo o que vejo, puro e livre, e aceito porque me é dado.
Sempre que o céu se curvar e tocar a terra
Por meio de brilho e chuva a salpicar as pedras
Desprender-se-á de mim sem choro e sem dor
Todo ele paisagem, perfeição e paz
Porque sendo céu, não é terra, e sendo terra, não é céu
Um equilíbrio que é bom de ver, sem que precise de pensar nele.
Ter-se-á então cumprido ao morrer-me nos olhos
Nascendo, sem esforço, no momento seguinte
Também ele, poema e chuva.

Perspectiva

Perspectiva
E visão
Metáfora onde me escrevo, circular e infinito
Mas por agora, sem espaço
Nas prateleiras eternas da existência de tudo.

De todos os momentos, tão iguais na razão de tempo
Traduzidos em vários pontos, como marcas feitas na vida
Escolho aquele, onde estanca e se aquieta o pensamento
E se alarga a alma, estendendo-se, por um plano sem medida

A previsão
Do tempo que falta
Ao tempo que me falta
É não saber o quanto, nem querer saber
Sabendo, que todo o tempo, depois do tempo
É meu, na minha inexistência


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