A vida é uma viagem

Cabe-nos a nós, enquanto viajantes, a responsabilidade e o dever de a cumprir.
Tudo o que é exterior à alma vai ser influenciado por ela, e irá posteriormente, influir na sua manifestação física no mundo.
A alma é condicionada a partir de si mesma, através de energia, positiva ou negativa, a que se afecta num determinado momento.
Imutável é o fim. Quando se cumpre um querer, um desejo, o seu desígnio de acontecer é a manifestação do amor, a sua recompensa a plenitude desse amor, que como todo, mesmo que um dia se dilua no vazio da inexistência, terá sido completo, pleno e imutável enquanto durou, e nesse preâmbulo foi amor eterno, por inequação do seu fim.

A vida é o sonho de viver, uma catarse da alma, por se perder na inconsciência do imediato, onde a compensação deste engano, vem através de fugazes e ilusórios alívios materiais.
Aqui, neste entremeio de viagem, nada do que é parece permanente, tudo se apresenta volátil e mutante à alma, e qualquer sensação de conforto é um estado transitório e passageiro. O conforto não passa de um brinquedo novo nas mãos de uma criança, que rapidamente se cansa do brinquedo novo por já ser velho nas suas mãos, e em desconforto, chora instintivamente pelo conforto de um brinquedo novo.
Aqui, neste entremeio de viagem, neste singular momento, a vida cumpre-se a si própria, e cabe-nos a nós, viajantes, cuidar para que cheguemos bem e em paz aonde for o destino de chegar. Esta empreitada constrói-se com amor, pois só o amor cumpre a viagem.

Estranho

A vida é uma maneira estranha de passar o tempo.
Repleta de lugares estranhos
Onde se encontram pessoas estranhas
Que agem de maneira estranha e fazem coisas estranhas.
Acho que o facto de entender isto e de o sentir
Faz de mim estranho para quem achar estranho isto que digo.

História

O que dirá, um dia, a história do meu passado?
Nada. Dirá nada.
Eu que não faço mais senão viver o dia e o sol
E cumprimentar a natureza quando a vejo.
Que sou livre e honesto
Por não acreditar em nada senão em mim e na vida
- Que será sempre a minha causa.
Eu que só bebo água quando tenho sede
E nunca obrigo ninguém a ter sede e a beber água...

Nada, de mim a história dirá absolutamente nada.
A história só diz e regista os que acreditam para além deles
Os que vivem, matam e morrem por outras causas que não a vida
Os escravos da glória.
Só diz dos que esquecem de viver o dia e o sol
E de cumprimentar a natureza
Dos que desperdiçam a vida por prendê-la a alguma crença
Quando o único propósito de qualquer crença
É roubar liberdade a quem nela acredita.
A história só diz e regista os que bebem água sem ter sede
E obrigam outros a ter sede e a beber água
E depois com muita glória
Dizem que matam sede a muita gente...

Mas de mim, nada
Dirá absolutamente nada do meu passado
Porque a história é um conto da soma de muitos dias
É social, oca, é superficial como revistas cor-de-rosa
E eu não lhe interesso
Eu não faço mais senão viver somente o dia
E cumprimentar todas as cores da natureza quando as vejo.

A mente

A mente é um engano, vá, uma mentira universal e instituída.

É uma ilha dentro da consciência, não passa de uma zona de conforto
Uma compensação da realidade de não existir
É como aquela coisa que compramos e nos oferecemos
Para compensar uma ausência qualquer, que não passa de uma ilusão.

E como ilusão que é, a mente protege-se a si própria
Gerando contextos para se justificar real
Cenários futuros; projecções; reflexos;
Memorias passadas; recordações; lembranças
Ilusões criadas a partir de ilusões.

É o momento em que a realidade por ela criada, a ilusão
Já não a distingue como ilusão, crendo-a real.
O momento em que nos torna escravos
Da sua escolha inconsciente de separação de uma consciência no presente
Escravos, da sua inexistência…

Avatar

Surpreendo-me, quando me dou a pensar em mim
Longe do lugar onde estou
A uma distância reveladora e lúcida
E esse pensamento é tão sólido
Que quase me sinto humano e físico
Quase consigo respirar.

Mas o pensamento é uma dimensão
E lá, sei-me apenas imagem
Avatar da minha inconsciência
A viver uma breve ilusão
Uma existência de controlo remoto
Num mundo fraccionado, fabricado para o efeito
Onde amor, liberdade e respeito
Não passam de palavras vazias
Realidades para experimentar e sentir
Quando voltar a mim e acordar.

Mas que me importam esses pensamentos
São só dores de crescimento sem corpo
Longe do lugar onde estou.

Consciência

A consciência é o meu único deus

O meu único mandamento, não como origem, nem como fim
Mas como meio para todas as coisas imutáveis.

Compreende todos os pensamentos individuais
Todas as filosofias, todas as manifestações físicas e espirituais
E funde-as em unidade, num todo existencial.

Nela não existem conceitos religiosos, nem políticos, nem sociais
Não existe dualidade, não há o certo nem o errado
Porque como todo, não pode ser regida por leis…

Ao todo não se aplicam as leis das partes
São as partes que se regem pelas leis do todo

E ela, a consciência, é a única lei que me rege.

O fim é uma despedida sem adeus

Que me desculpem os interessados se os houver
Mas quando morrer, não vou dizer a ninguém
Não haverá carta de despedida nem obituário no jornal.

A morte cairá sobre mim e sobre a vida como camuflagem urbana
Um manto de rotina de todos os dias
Que cobrirá a totalidade da vossa imaginação
Será o meu sonho terminal, a minha piada final
Névoa branca que tolda a negra realidade das coisas
E terei então morrido sem morrer.

Vou viver desajeitado na morte como vivi na vida
No anonimato bivalve com que experimentei o mundo
E esta distância, este descompromisso de me mostrar
Será uma bênção e uma ausência de sentimento para todos.

Quando quiserem saber de mim e não me encontrarem
Irão pensar que estou vivo e será essa a vossa realidade
Pensarão que parti para algum lugar longínquo
Alguma viagem que não cheguei a fazer
E que estou incontactável
Desinteressado de tudo e de todos, como sempre me sentiram.

Ninguém irá saber
Que tudo o que vi no mundo, foi meu sem reservas
Tudo o que vivi na vida, fui eu apenas por inteiro
E depois de morrer, serei eu, pensamento
E só será realmente o fim
Quando ninguém se lembrar que existi.

O fim é uma despedida sem adeus.

Plano inclinado

Um dia vais acordar de manhã
Olhar à tua volta e vais sentir que a vida que sempre viveste
Agarrado a coisas externas que te dão segurança e identidade
Já não faz sentido.
Vais ver o mundo com uma clareza avassaladora
Desmistificar medos e dissipar dúvidas
Vais sentir por dentro uma certeza indestrutível
Que a vida não é só uma experiencia temporal e física
Que afinal o plano tem mais planos
Que não são assim tão planos
E que num outro destes planos
O teu corpo é uma máscara descartável.

Uma máscara que só existe na imagem que fazemos de nós
Porque vemo-nos através dos olhos de alguém
De alguma filosofia, de alguma religião, de alguma política.
Mas quando nos olhamos através do próprio olhar
Descomplicado e infantil por não saber
Abre-se uma porta para um caminho sem prisões
Onde a alma é o todo absoluto e livre
Que não necessita de direcção ou formatação
De ditadores ou professores
Não necessita de casamentos nem amantes
Precisa apenas sentir amor.

Na verdade vemo-nos de longe
E como tudo o que se vê ao longe
Cria-se uma ideia, projecta-se uma imagem do que poderá lá estar
Mas não se conhece realmente.
Agimos connosco em conformidade com a distância a que nos colocamos
Tratamo-nos como estranhos de nós próprios
Criando imagens e ideias do que poderemos e queremos ser
E projetamo-nos no mundo para obedecer a esta realidade.

As máscaras não existem naturalmente em ninguém
São apenas acessórios externos e ilusórios
Que, por comodidade ou insegurança, são usados como escudo
Como reacção defensiva a corpos estranhos e agressivos
Ou como forma de integração e aceitação neste baile de mascarados.

Mas um dia vais acordar de manhã
Olhar à tua volta e vais perceber que já não tens máscara
Que não tens dúvidas
Que não tens medos
Qua a vida afinal faz sentido se nos sentirmos
Vais acordar
E perceber que já não estás a dormir.

Como são feitos os sonhos

Todos os sonhos são feitos de terra
De ar, de água e de fogo
E são alimento da ilusão.

Os meus sonhos são feitos de dias e de noites
São permeáveis ao cansado de limites temporais
Calmos oásis onde descanso tardes
Trespassadas pela areia das horas.

Os meus sonhos são feitos de homens e de mulheres
Máquinas oleadas deste tempo
Programadas, adaptadas pelos seus próprios sonhos

E são sonhos que sonham também
Sonhos feitos de imagens, de rios e de flores
De paisagens calmas e de pores-de-sol.

Os meus sonhos são abrigos e refúgios
Onde me escondo para não viver

Mas a realidade é feita de não sonhar
E esquecer-me disto é mentir-me agora, hoje
Como tenho mentido a vida toda
E esquecer-me disto é não viver

Esquecer-me disto é sonhar.

Ilusório

Caminha ao meu lado
Se quiseres.
Olha para mim que eu olho para ti
E tocamo-nos assim.

Não tenhas pressa
Se te atrasares, eu espero por ti
Tocamo-nos assim
Eu sem te tocar
E tu, sem me tocares a mim

Mas não te esqueças de olhar
Não te afastes, nem me puxes para ti.


Não me afastes de mim
Porque eu não me esqueço de olhar
Nem me esqueço de mim
E não vou por aí.

Caminha ao meu lado
Se quiseres
Que eu caminho ao teu lado
Se quiseres.
Olha por mim
Que eu olho por ti
E tocamo-nos assim.

Ants

Hoje estou cansado
Dói-me o corpo da realidade compressora sobre a carne
E dói-me a cabeça com o peso destes pensamentos sólidos.
Estou cansado
Não pelo que fiz hoje
Mas pelo que tenho agendado para fazer amanhã.

Se soubesse que ia morrer esta noite
De certo andaria folgado e leve
Por não ter nada para fazer amanhã.
O que me cansa são os dias programados
A repetição no pensamento, antes de acontecer a repetição dos dias
E cansa-me mais a certeza de pensar nisto
Do que tudo o que tenho para fazer e que sei que não farei
E esta certeza aleija-me o corpo como culpa de faltar com a vida.

Quisera o destino que fosse humano
E que tivesse pensamentos sólidos
Sobre qualquer coisa que cheira a céu e a divino
Quando deveria ser formiga, feliz por não pensar repetições
E por andar sempre junto à terra.

Ando farto de ser deus do meu destino por cumprir.

Hoje estou cansado da realidade de não ser formiga.
Estou sentado numa cadeira a ver formigas  
A passarem encarreiradas na labuta automática de não pensarem amanhã
Nem no segundo seguinte, nem na morte a consumir-lhes o tempo.

Estou sentado na cadeira que me persegue para onde eu for
E cansado de fugir dela   
Cansado de ser eu e ter pensamentos sólidos
Agarrado à vida e a coisas vagas como amanhãs com cheiro de morte.
Cansado
De ver formigas.

Momento


E Eu, dividido e disperso no tempo.
Dia por dias, passados e futuros, que me imprimem fotocópia.  
Imagino-me na totalidade, repartido por folhas diversas
Respeito instruções, a vida fora do corpo, de uma gráfica universal
Sigo à risca e metodicamente o manual do sapiens republicado
Onde à nascença foi carimbado o meu nome.
Para amanhã, já me dei à luz
Alimentei-me de rotina para morrer ao fim do dia
Mas hoje, sem a asma que sei que sentirei amanhã pela manhã
Sem o ar de frete que me trazem outros na cara na fila do trânsito
Sem trabalho, sem almoço, sem cigarros, sem mais trabalho a tarde toda
Sem o embrulho no estômago… jindungo no cu de todos os meus eus
Sem luzes agarradas aos faróis na fila de volta a casa
Sem banho, sem jantar, sem bola na TV, sem cama e sem sono 
Hoje, sem nada do que me fará ser eu amanhã.

Delírio passado ou verborreia inútil 
Nasci em partos complicados e criei-me igual todos os dias
E nem num apenas, me mandei a merda e fiquei a dormir.
Noites, insónias suadas
E guilhotinas suaves para encadernar vida em pensamentos.
Lição futura ou cáustica previsibilidade. 
Crio-me de novo, cómodo, e de novo e para o ano inteiro
Amamento-me e cresço nos lençóis surrados da preguiça de os mudar hoje
E eu, tantos
Já sou tantos, antes e depois, que agora, não sei qual sou realmente
Que importa, sou todos, uns iguais aos outros
E de todos, não quero ser nenhum de mim    
Convoquei-os, mesmo àqueles que já esqueci 
Reunião, assembleia-geral, eu com os meus eus reunidos à minha volta
Todos intimados a escrever sobre quem sou.

O tempo não existe
E eu, momento, folhas brancas.
Folhas brancas
Ou uma vida inteira.

Insónia

Insónia da minha alma.
Durmo no quarto da realidade de janela aberta
Sem descansar o pensamento, sem nunca desafinar as engrenagens
Para aliviar da mente o peso do corpo atirado ao sono.
...
Trago uma criança inquieta pela mão ainda por nascer
Que me arrasta o cansaço de um lado para o outro
Entre frenesins de porquês e horas que não sei responder


Trago uma criança inquieta sem ilusões à fila dos dias
Que recusa ser gente e tirar senha para viver
Que nega vez para crescer e ter consulta marcada
Ouvir doenças e diagnósticos de alguém estabelecido de alguém

Doutores formados, todos eles, alunos da minha vontade.
Ironia ser eu, o professor quando crescer.
...
Durmo na rua das minhas palavras sem me escrever
Sem nunca adormecer nos quartos desarrumados da mente
Onde, sem espaço, apenas descanso do tempo
A insónia da minha alma.

O mundo nasce hoje dentro de mim

O mundo não existe amanhã.
Não me lembro de ser eu
Sempre fui realidade a viver fora do corpo.

Estudei uma pauta para ser sistema e decorei-me
Quando acabei o curso sabia menos que uma criança
Fui doutor da minha ilusão e do estudo dos outros
E olhava para tudo sem ver, a imaginar amanhãs

Dentro dos rostos que conhecia, eram-me todos estranhos.

Quis ser quem não era, igual a muitos
Quis ser alguem e o que esperavam de mim e copiei-me
Estava vestido de humano, tão perto que podia tocar-me
Estiquei um braço e empurrei-me contra o mundo
Deitei-me aborrecido a ver-me cair e adormeci

O outro da minha realidade, doutor formado dele mesmo
Perdeu-se no sonho entre rebanhos de gente...
Quando acordei, doeu-me a verdade nos ossos e fiquei em casa
Quis levantar-me da cama mas não consegui
Quando olhei prá rua pela janela do quarto
O mundo estava vazio
E eu estava só.

Nunca mais serei quem fui
Desmascarei o tempo e o espaço, a ilusão
E o mundo nasce hoje dentro de mim.

“La folie”

Parece quase loucura, esta certeza de te querer
Revelar-te a inquietação que me causa ansiedade
Em palavras, em desejos e segredos por dizer
Qual beijo que sem tempo se guarda na saudade

Parece quase loucura, esta loucura de viver
Do mundo alienado em tão estranha realidade
E procurar, assim perdido, o momento de te ter
No qual te possa mostrar o que sinto de verdade

Parece quase loucura, a certeza que me faz querer
Este desejo que me tortura o corpo sem piedade
Que faz de mim pólvora, bala e arma, sem o saber
Pra matar esta distância que me mata de saudade.

Ensaio sobre gravidade

É nas pessoas que se conhece o mundo…
Às costas uma obra em ruínas
Pedregulhos e estilhaços de vidro
Que deixo na berma da estrada

Se a subida fica íngreme
Bebo vinho, cambaleio, sigo em frente   
Dêem-me o ópio da china
Para sair fora de mim

Conto pequenos dilemas em silêncio
Deixo os mortos para trás
Mais a dor ao abandono
Para aliviar o peso, porque ainda falta caminho

[É esta calma
Que me leva para ao fim]

As juntas já vertem diesel nas plantas
Porque a máquina tem folgas 
Paro na oficina do tempo, uma e outra vez
E espero por Newton

A vida é um alpendre invisível
Com tábuas que rangem aos passos
Espanta espíritos magnéticos
E cadeiras empoeiradas 
Com vista para um pomar de macieiras
Em desconto de fim de estação

É nas pessoas que sinto gravidade.


Costa Da Silva  

Em tudo um nada

Alimentar uma essência especial
Talvez uma luz
Interna à matriz que edifica o espírito
Que desfaz o ser.

Desacreditar o que os olhos vêem
O que o corpo sente
Para num passo chegar à verdade.

Ser em tudo com a mesma verdade que se é em nada
Ser tudo com a consciência que se é nada
E incorporar esta condição de existir e viver
Para entender a realidade

Para acordar sem nunca adormecer
Para viver sem nunca viver
Para morrer sem nunca morrer.