Plano inclinado

Um dia vais acordar de manhã
Olhar à tua volta e vais sentir que a vida que sempre viveste
Agarrado a coisas externas que te dão segurança e identidade
Já não faz sentido.
Vais ver o mundo com uma clareza avassaladora
Desmistificar medos e dissipar dúvidas
Vais sentir por dentro uma certeza indestrutível
Que a vida não é só uma experiencia temporal e física
Que afinal o plano tem mais planos
Que não são assim tão planos
E que num outro destes planos
O teu corpo é uma máscara descartável.

Uma máscara que só existe na imagem que fazemos de nós
Porque vemo-nos através dos olhos de alguém
De alguma filosofia, de alguma religião, de alguma política.
Mas quando nos olhamos através do próprio olhar
Descomplicado e infantil por não saber
Abre-se uma porta para um caminho sem prisões
Onde a alma é o todo absoluto e livre
Que não necessita de direcção ou formatação
De ditadores ou professores
Não necessita de casamentos nem amantes
Precisa apenas sentir amor.

Na verdade vemo-nos de longe
E como tudo o que se vê ao longe
Cria-se uma ideia, projecta-se uma imagem do que poderá lá estar
Mas não se conhece realmente.
Agimos connosco em conformidade com a distância a que nos colocamos
Tratamo-nos como estranhos de nós próprios
Criando imagens e ideias do que poderemos e queremos ser
E projetamo-nos no mundo para obedecer a esta realidade.

As máscaras não existem naturalmente em ninguém
São apenas acessórios externos e ilusórios
Que, por comodidade ou insegurança, são usados como escudo
Como reacção defensiva a corpos estranhos e agressivos
Ou como forma de integração e aceitação neste baile de mascarados.

Mas um dia vais acordar de manhã
Olhar à tua volta e vais perceber que já não tens máscara
Que não tens dúvidas
Que não tens medos
Qua a vida afinal faz sentido se nos sentirmos
Vais acordar
E perceber que já não estás a dormir.

Como são feitos os sonhos

Todos os sonhos são feitos de terra
De ar, de água e de fogo
E são alimento da ilusão.

Os meus sonhos são feitos de dias e de noites
São permeáveis ao cansado de limites temporais
Calmos oásis onde descanso tardes
Trespassadas pela areia das horas.

Os meus sonhos são feitos de homens e de mulheres
Máquinas oleadas deste tempo
Programadas, adaptadas pelos seus próprios sonhos

E são sonhos que sonham também
Sonhos feitos de imagens, de rios e de flores
De paisagens calmas e de pores-de-sol.

Os meus sonhos são abrigos e refúgios
Onde me escondo para não viver

Mas a realidade é feita de não sonhar
E esquecer-me disto é mentir-me agora, hoje
Como tenho mentido a vida toda
E esquecer-me disto é não viver

Esquecer-me disto é sonhar.

Ilusório

Caminha ao meu lado
Se quiseres.
Olha para mim que eu olho para ti
E tocamo-nos assim.

Não tenhas pressa
Se te atrasares, eu espero por ti
Tocamo-nos assim
Eu sem te tocar
E tu, sem me tocares a mim

Mas não te esqueças de olhar
Não te afastes, nem me puxes para ti.


Não me afastes de mim
Porque eu não me esqueço de olhar
Nem me esqueço de mim
E não vou por aí.

Caminha ao meu lado
Se quiseres
Que eu caminho ao teu lado
Se quiseres.
Olha por mim
Que eu olho por ti
E tocamo-nos assim.