Império

Império só. Embrenho no mistério desse reino longínquo, impossível de conquistar.
Este mistério é o manto com que deus se cobre de noite para não ter frio enquanto dorme, deitado na relva do seu jardim. Porque deus é tudo o que existe entre a terra e o céu.
Vago reino impenetrável de candeias acesas em procissão. Marcha lentissima que enfeita de luzes o céu e de ilusão a minha alma, roubando-a para a segurança dos seus portões.
Sinto, imaginando-o, como a única realidade de o sentir. E se por ventura consigo senti-lo real, sinto-o por fora da alma, como se tivesse outro corpo. Porque este reino de mistério é ilusão e a minha alma, real.


Realidade às avessas

Quando a imperfeição é a realidade, não existe nela a consciência da sua própria imperfeição. Quando, numa realidade imperfeita, surge algo para a aperfeiçoar ou corrigir, parecerá sempre que esse algo é um erro, imperfeito e irreal. 

Eterna partida


Vivo como um desalmado, sem destino
Preso à dúvida e à incerteza de ser eu por onde passe 
Sem retorno, sem a glória de poder partir
Porque partir é a supremacia de ser livre entre iguais

Não me importo quando, pois quando for 
Será a noite e o dia, um só momento
Será clarão no peito alado de um cavalo multicolor
Que me levará, revelando a alma à qual pertenço 

E saberei intimamente que aquela é a minha alma 
Não por ela me pertencer, como qualquer objecto do meu apreço
Mas por ser todo o meu corpo que lhe pertence 
Facto, que nem a minha mente poderá desmentir

Quando assim for, o meu corpo outrora vazio
Será um templo de adoração à natureza e aos homens
E onde quer que esteja, onde quer que chegue na vida

Poderei sempre partir até morrer, e em cada partida 
Erguerei um altar para honra-la em glória e dizer que amei 

E farei tudo de novo

Até que o amor seja o único sentimento
Presente em todos os lugares, em todas as partidas
Constante em todos os altares do meu corpo.
 

19.06.16

enquanto existimos somos tão pouco, somos apenas um pouco mais do que nada, e isso é ser muito...somos o aroma que a nossa essência liberta em comunhão com o mundo...tocamos, sem realmente tocar, somos tocados, sem verdadeiramente o sermos, estendemo-nos fora de nós e do limite do que é físico, chegamos além do que compreendemos e a este alcance, chamamos sentimentos...somos o aprendizado que deixamos, o compêndio final do que fomos e que ficará no tempo, para ser lido quando não precisarmos dos olhos para ver...estamos e permanecemos agarrados à hipótese de existir sem nunca a experimentarmos, sem nunca nos testarmos por dentro...fora ela, a hipótese, somos tudo, tudo o que está fora da consciência da nossa acção e do seu alcance, todos a quem o aroma da nossa essência envolve e nos são perfeitos desconhecidos, o tudo que somos e não entendemos, e que só entenderemos, quando suprimirmos este desejo de ser a qualquer custo que nos cega o coração.