Cai o conforto desta mágoa ao fim da tarde

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Cai o conforto desta mágoa ao fim da tarde.
Na meia-luz abre-se o tempo, onde a fogueira ainda arde
Consumindo em labaredas o futuro, o passado

E todos os meus desideratos

Como brasas incandescentes sopradas pelo vento
Queimando a vida lentamente
Os destinos
Os dilemas
Dúvidas
E certezas
Queimando o oxigénio que me falta.

Cai o sol entre retratos pelos dedos sombreados
Onde os medos que enfrento, apenas trazem solidão.
Abrem-se noites no meu peito, nos momentos recordados

Abrem-se vãos, enquanto caminho pelo chão.

Cai a vida lentamente ao fim da tarde
Como lenta sinto a queda do meu corpo neste ponto

Este silêncio absoluto em que me encontro.

Brilha na constância de um anjo adormecido

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Um tempo sublime anestesiado na cor dos meus dias.
Como uma luz de pedra, levas-me, tomas-me os desejos
E brilhas na constância de um anjo adormecido.

Não faz sentido o calor da madeira consumida no meu caixão.
Quando o nome da despedida estalar no fogo, chora o degelo
Mas não me vertas, não me deixes cair do fundo dos teus olhos.

Admira a dor na seda das chamas, quentes memórias
Os corpos despidos, o cheiro só nosso que fizemos sexo
Admira, contempla tudo e sorri depois do grito metálico.

Das conquistas, das derrotas, podes beber o sal das minhas feridas
E perseguir, perseguir, perseguir este meu sonho
Mas jamais sentirás o sabor da minha altura, a dor da minha queda.

Brilha então, brilha na constância de todos os anjos adormecidos
E deixa-me arder até ao fim, mais as memórias do sonho deposto

Não me chores agora, leva-me as cinzas contigo ao por do sol
Ao cimo da nossa vertigem, na colina de amor e lança-me no vento.
Deixa-me voar, deixa-me despertar os teus anjos adormecidos
Trazê-los ao inferno dos meus pensamentos e amar-te no além

Dispenso formas, os limites do corpo rendido ao veludo do sangue
Abstraio da matéria palpável, os toques no jardim, o beijo da morte
E respiro perfume, o teu, vivo nos pensamentos onde sou essência

Na tua eternidade, onde sou finalmente o meu tempo.

O veículo ou consciência como origem e extinção [A anti-espécie

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Pergunto-me, se há consciência em tão doce existência
E sobre a nua realidade, de uma ou duas breves horas
Quando se tem asas para tudo

Sobre o alcance dessas horas no voo final das Efémeras
[e qual o seu significado, qual a sua verdade?

É o avassalador instinto na continuidade de um bater de asas
[ainda que breve
Que ilumina qualquer sombra do destino
E apaga todos os traços de morte desenhados no horizonte.

[A anti-espécie
Quantos homens e mulheres trariam ao mundo os seus filhos
Na incontornável certeza da morte durante esse processo?
Seria esta consciência o veículo da nossa extinção
Da nossa breve existência como espécie.

As brancas do meu pensamento

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Doravante quero todas as casas da minha rua pintadas de branco
E em todas as janelas cortinas brancas
De um branco intencional, como as cortinas da minha janela

E todos os carros devem ser brancos também, sem excepção.

[Então, com a rua toda de branco, de tão previsível que será
Será única, saberei que é a minha sem precisar olhar para ela.]

E esta comodidade, sem que ninguém desconfie
Far-me-á sentir cómodo, com as brancas do meu pensamento.