Quando a brisa vem serena

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Quando a brisa vem serena, levanta o véu como se nada fosse
As cortinas ondulam ao primeiro vento da manhã
Descobrem os primeiros raios de sol do dia em que acordei

Desperto a dizer do dia e do sol para sair porta fora e ter vontade
Caminhar pelas ruas e falar com as pessoas
Com a suavidade com que a cortina ondula e diz do vento.

Assim amanhecem novos mundos aos primeiros raios de sol
Lugares conscientes onde ninguém é plástico nem betão

Assim é o universo como o imaginei ao sair de casa
Caminhar pelas ruas e falar com as pessoas
Sementes da semente universal.

Lugares conscientes, jardins com espaço por não terem paredes.

O homem da máquina a vapor

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Kemp, o homem da máquina a vapor, não tinha pressa em descobrir os mistérios da sua existência, afinal ele era, em todos os horóscopos, o próprio mistério por revelar.

Lá fora ouviam-se murmúrios Invernais.
Um Inverno com balas de frio que entravam dentro das salas e dos quartos, pelas janelas da casa.
Aquele frio marcou-o profundamente, ao longo do tempo, com varias cicatrizes em todas as divisões da sua vida.

Naquele dia levantou-se cedo, um pouco antes do dia, com a mesma sensação de sempre, sentia desconforto ao respirar, um ardor nas palavras silenciosas que tinha que escrever e que alimentavam o deserto desolado que lhe crescia dentro das gavetas da escrivaninha.

Kemp, ajeitou o guarda-chuva pendurado no braço, meteu as mãos no fundo dos bolsos e saiu de casa pronto a enfrentar o nevoeiro matinal, deixando para trás a tempestade que se formara no sótão do seu corpo.

Seguiu pela travessa até ao cais, saboreando a maresia fresca e salgada que o vento trazia do mar.
Sabia que ao fundo da rua havia uma praia escondida entre os prédios, lembrava-se bem a última vez que tinha lá estado.

No céu, as gaivotas voavam em círculos sobre o mar encrespado e gritavam por socorro, um peixe afogava-se no aquário dos seus olhos.
Respirou fundo, olhou a cratera que se abriu no chão sob os pés e deixou-se cair imerso na névoa dos seus pensamentos.
Lutou, tentou levantar-se uma e outra vez, apoiando-se nas memórias, mas não conseguiu.

Da praia, das gaivotas e do mar, já nada sabia, o peixe morreu.

Fechou os olhos e as cataratas do Niágara escorreram pelas janelas do prédio castanho que trazia vestido.
Ficou ali sentado durante muito tempo e era o tempo todo que tinha naquele dia para estar só.

A máquina a vapor ia carburando, lentamente dentro do peito, aquelas horas de Inverno.

O homem sentia letras nos dedos

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O homem sentia letras nos dedos
Escrevia o sonho
Voava.

O homem sentia vozes na boca
Vivia a palavra
Ele escutava

Pensava o mar dentro de um copo
O homem sentia
Lembrava a terra da qual se perdeu
E sofria.

O homem morreu.

A mulher chorava vestida de negro
Emprestava a lágrima
Ela amava

O homem sentia letras nos dedos.
Amou
Sonhou
E morreu

O homem assim se escreveu.

A porta nova da casa velha

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Todo o espaço que há dentro da minha casa
É o espaço onde nasci, cresci e onde irei morrer
Não pode ser, nem o vejo, de outra maneira.

Tenho perdido algum tempo a arranjar o telhado
A pintar as paredes e a mudar a porta e as janelas
E este tempo tem-me feito falta
Para conhecer o espaço que há dentro de casa

A casa que vai, ao longo dos anos, envelhecendo.

Embora o espaço que há dentro da minha casa
Não seja um espaço grande demais, preencho-o assim
Com o que sou e com o que o mundo me oferece

E é por esta razão, elementar como só a vida pode ser
Que a porta nova da casa velha está sempre aberta.