Fidelidade ao pensamento

Percorro em pensamento as minhas memórias reais
Sigo, com alguma dor, mapeando a terra onde mentalmente me vejo crescer
Faço-o sem preconceitos, despido de formas concretas
De normas comuns ao olhar desinteressado do mundo
Liberto de ideais que formatam os homens
Da educação que os engorda nas laterais do corpo

Floresta concreta de sombras caídas
Tão sólidas e profundamente enraizadas nos corações
Que se tornam comuns à cidade e ao meu corpo
São dias abraçados a noites com pouca força nos braços
São homens que desistem de amar outros homens
E deixam cair na sombra do ego o amor ao próximo e ao estranho
Porque amam somente o que é seu

Procuro, vestido de uma esperança propositada
Pessoas incomuns que se interessem por pessoas incomuns
E desejo que este interesse lhes seja comum
Convertendo-as em pessoas comuns
Que construam pontes entre estar vivo e viver
E sejam, no futuro merecido da criança que sou
Arquitectos de amor das paisagens naturais e humanas

Só, entre canteiros de flores e árvores crescidas
Perco-me pensamento plantado quando era luz e nasci
Envelheço temporalmente por fora, banco, jardim, descoberta
Porque a terra é fértil e convida a olhar
E olhar para ela com inocência
É aprender a viver na cidade
E falar dela às pessoas
É escrever poesia com a boca
Mas é apenas e só
O meu ar
O meu sonho
A minha ilusão.

Artificial

Pássaros que voam livres
Jamais contentam-se ficar
Iguais e imóveis como gaiolas
Cárceres de um só lugar

Respirar é para os que vivem
Condição em nada artificial
Ilusão da qual não dependem
Voar, é-lhes pois natural

Presos, lembram flores de plástico
Ilesos sim, mas são pesos mortos
De vida frágil e curta nos corpos

Cadafalsos e carrascos de ferro
Derrotados pairam todos sobre mim
Descida, pássaros que penam, enfim.

Um quarto sem janelas

Porta aberta. A vida é um quarto sem janelas
As paredes cheias de fotos de gente famosa
E de telas de pintores consagrados

A porta aberta. Antecâmara da solidão
Entrei a medo sem saber ao que vinha
Sem saber quem era e o que esperavam de mim

Ao acordar tudo brilha como novo
E o mundo tem gosto de primeira vez
O que aprendi do mundo
Foi com o que me puseram à frente
Com a realidade exposta nas telas e nas fotos que via
E que aceitei como minha
Porque parecia mal fazer perguntas

A vida é um quarto sem janelas
É a solidão de ter dúvidas sobre os enfeites nas paredes
Ter de aceitar fotos e telas como realidade
E ainda assim, viver num quarto com janelas.

Ponto de partida

Uma linha de luz arqueada
Flutua suspensa
Na extensão do braço, onde a força
Abandona o corpo

O grito de vidro soprado vazio
Impera calado
Quando o silêncio reflecte a voz
Da sombra quebrada

Por passos
Que se afastam e convergem

Ao ponto onde a tristeza absorvida
É libertada
No instinto irracional e separador
De um adeus.