A porta dois

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Vulcões de outra luz, magma atrasado no peito do querer
Abraça-me com a voz da tua voz, antes que ame outra cidade

Eu tenho as ardências da porta dois, um caso por resolver
Recursos a rasgarem pele para o tribunal da tua hora
Um caso pacífico de vida
Com resolução oceânica que se adivinha mais à frente
…
A porta dois, onde acontece algo maior 
Não posso afastar o vidro da janela, nem partir ao meio o tempo
Não posso trazer para dentro a rua
Fico por sair então

A porta dois onde me encontram sempre fora
E fico sem, em troca de cem, sem pensar que existe o que pensar
Encontro-me cá dentro, sempre na porta dois.
…
Vulcões de outra luz, magma atrasado no querer depois de olhar
Abraça-me com a voz do teu calor, antes que me imagine outra vez
Ainda tenho ardências na porta dois por resolver.

Existencial

A terra húmida sob os pés
Vida que passa descalça
Por ser tão livre como criança
Ou arvore de fruto
Ou erva daninha.

Faço a minha casa nos teus olhos
Uma espécie de amor
Que trago à noite
Com jardins e com vento
Para dormirmos bem.

Sobre a vida
Falo te amanhã
Vamos dormir agora
Abraçados a esta filosofia
Imperfeita como os homens.

Para sempre a vida
Talvez um ciclo
Esqueci uma religião que falava disso
Sintonia e equilíbrio
Para sempre, acredita 

Quando partir ficarei ao teu lado
E levo-te comigo
No aroma de uma essência
Tão básica e natural
Que não existe.


Costa Da Silva 



Nos braços da madrugada

A noite cai lenta e macia
Sobre a tapada
Cobrindo o brilho do dia
Assim, calada…

Calada

Seduz a curva da estrada
Que à frente fluía  
Tão longa, tão fechada
Assim, morria… 

Morria

Na acidental filantropia 
De um pinheiro
Onde a vida se escondia  
Assim, calada…

Calada

Não há vidros partidos
Nem lágrimas
Nem gritos sofridos
Na face de uma folha caída
Seca e morta à beira da estrada

Tão calada…

A noite caía lenta e macia
Sobre a tapada
Cobrindo o brilho do dia
Assim, calada…

E morria
E gritava
E chorava
Nos braços da madrugada.

Só isto importava
Mais nada…

Mais nada.


Costa Da Silva

Ninguém dá por nada

O pólen da nossa flor
Cai dos dedos
Enquanto o sol se deita
No precipício de nós
E morremos gelados
Entre tempos relógios
Que separam homens.

Vermelho sangue
Corta-se a carne.
Enche-se o copo
Bebe-se até ao fim.

Letras cansadas.
Arde âmbar incenso  
No fogo da manhã
E hoje é o nosso ar
Espalhado nesta sala
Que servirá os mortos.

Fecha-se a carta
Quem escreveu, escreveu
Vira-se a página
E sente-se a vibração na pele.

Uma rosa entre palmas
A Amália canta baixinho

E ninguém dá por nada
Bis
Bis


Costa Da Silva