Existencial

A terra húmida sob os pés
Vida que passa descalça
Por ser tão livre como criança
Ou arvore de fruto
Ou erva daninha.

Faço a minha casa nos teus olhos
Uma espécie de amor
Que trago à noite
Com jardins e com vento
Para dormirmos bem.

Sobre a vida
Falo te amanhã
Vamos dormir agora
Abraçados a esta filosofia
Imperfeita como os homens.

Para sempre a vida
Talvez um ciclo
Esqueci uma religião que falava disso
Sintonia e equilíbrio
Para sempre, acredita 

Quando partir ficarei ao teu lado
E levo-te comigo
No aroma de uma essência
Tão básica e natural
Que não existe.


Costa Da Silva 



Nos braços da madrugada

A noite cai lenta e macia
Sobre a tapada
Cobrindo o brilho do dia
Assim, calada…

Calada

Seduz a curva da estrada
Que à frente fluía  
Tão longa, tão fechada
Assim, morria… 

Morria

Na acidental filantropia 
De um pinheiro
Onde a vida se escondia  
Assim, calada…

Calada

Não há vidros partidos
Nem lágrimas
Nem gritos sofridos
Na face de uma folha caída
Seca e morta à beira da estrada

Tão calada…

A noite caía lenta e macia
Sobre a tapada
Cobrindo o brilho do dia
Assim, calada…

E morria
E gritava
E chorava
Nos braços da madrugada.

Só isto importava
Mais nada…

Mais nada.


Costa Da Silva

Ninguém dá por nada

O pólen da nossa flor
Cai dos dedos
Enquanto o sol se deita
No precipício de nós
E morremos gelados
Entre tempos relógios
Que separam homens.

Vermelho sangue
Corta-se a carne.
Enche-se o copo
Bebe-se até ao fim.

Letras cansadas.
Arde âmbar incenso  
No fogo da manhã
E hoje é o nosso ar
Espalhado nesta sala
Que servirá os mortos.

Fecha-se a carta
Quem escreveu, escreveu
Vira-se a página
E sente-se a vibração na pele.

Uma rosa entre palmas
A Amália canta baixinho

E ninguém dá por nada
Bis
Bis


Costa Da Silva

Morrem no peito Legiões

?

No ciclo eterno das estações, em cada nova reunião
A percepção exacta da palavra, do gesto
Como prolongamento, como extensão da âncora

Fundeada no longínquo mar dos meus ancestrais.

Uma nítida dimensão onde adormecem os sentidos
A claridade dos dias, a luminosidade das noites
Confinadas aos cantos desta dor

Em demorados rituais, em prolongadas penitências.
…
À luz de outras existências, noutras sangrentas arenas
Tolhidos movimentos, envoltos, por lúgubre manto
Qual pesada lacerna    

Na demanda que cruza este avito tempo 
Desfaço a alma, contorço o corpo
Esfolo dos pés a pele, em passos sem cáliga.
…
Percorro o vazio da antecâmara até à boca

Revela-se agora um acústico círculo de vozes em coro
Onde se faz murmúrio e do murmúrio a palavra
E da palavra o cântico, rasgado por gritos   

A plena evocação, à alma de todos os corpos
À loucura dos massacres

Ao delírio de todas as dores, num único momento.