Calmaria

Dos teus brilhos, caminho meu
Podia dizer, se o sentisse
Que são jardins feitos de sol
Ou ondas em verde manto que o vento afaga
Podia perder-me, se quisesse
Nas formas distantes do tempo
E dar-me todo, tempestade

Mas os teus brilhos, olhos meus
São causas e efeitos, são calmaria
Por eles o tempo pára, eu bem sabia
São a pedra onde me sento
E turbilhão, sou tudo o que me devo

É nos teus brilhos que me perco
No simples olhar para uma flor
E não desejo, sequer procuro outro caminho
Deixo-me estar assim quieto
Até que a flor seja caminho e seja brilho
Até que seja, por fim, beleza
E inteira, tome conta da paisagem
E tome a paisagem, conta de mim.

Cada noite é um poço onde o dia vai matar a sede

No campo o dia é quente
E quente, trago a alma à realidade dos factos
O corpo, amarrotado de dormir, fica pendurado no roupeiro

Cada noite é um poço onde o dia vai matar a sede

No quarto a noite é fria
E frio, visto o corpo à imaginação do sono
Enquanto a alma vai fazer castelos na praia dos sonhos.

No tecto da imaginação faltam telhas à realidade
O céu, azul durante o dia ou constelado de noite
É oferta da alma para um corpo cansado de existir
E tudo é sonho na realidade que a vida veste
Quando se acorda para morrer.
No campo os dias são quentes
E frias, são as noites no meu quarto.

Poema que só quer ser

O poema não quer saber da poesia para nada
Nem do poeta que o escreve
Assim que nasce emancipa-se, corta os laços da filiação
E tenta encontrar um lugar no mundo
Visibilidade, espaço, com sorte, fama

O poeta erra ao querer defender o poema
Ao tomar-lhe as dores
Ao querer tutela-lo até ao último dia que vive
E depois, quando morre
O poeta espera que o poema lhe vá levar flores à campa
E que não deixe esquecerem-lhe o nome

O poeta erra por pretensão
Porque quer brilhar mais que o poema
Mas o poema, órfão por opção, não se importa
Pois sabe que não está nas mãos do poeta
Ser adoptado pelo mundo ou não.

O vestido branco e dourado

Anda por ai um vestido branco e dourado
Que alguns juram, pelo deus dos vestidos, ser preto e azul
E foi um caso que gerou grande falatório
Foi exaustivamente estudado por doutores da saúde dos olhos
E por cientistas da ciência das cores
E tiveram que parar muitas guerras
E muita gente ficou por morrer
Para apurar quem tinha razão

O que me importa é que o dito vestido
Assenta bem a quem o veste
E não pensei mais sobre isso
Porque isto de ver com os olhos
Cada um vê a cor que consegue
Dizem que é genético e que depende do ângulo de luz

Ainda hoje choveu outra vez
E já há uns dias que não chovia por estes lados
Já andavam pessoas à fresca com a pele ao sol
E sempre que está sol
A vida fica mais leve
Sem ângulos suspeitos e sem cores duvidosas
Com um pouco mais de luz sobre todos os despidos
Sem genética.