Forma de cair

Não há outra forma de cair
Senão a forma que a vida mostra
Nem outra maneira de viver
Do que aquela que cair ensina
Quem isto entende, tem como endireitar as costas
Seguir e levantar a cabeça
E depois da queda, o momento em que ergue o corpo
É todo ele força, movimento e vida

Não se pode viver curvado
Com uma visão deformada das coisas
Abrir os olhos e acordar, é natural até morrer
Mas acordar não é viver
Nascer é estar vivo, até porque nascer todo o homem nasce
Só que estar vivo não é viver

Viver é movimento somado à vida, à existência
É atrito, sentimento, é uma química que acontece na alma
De alguém que cai e depois se levanta
E sem mágoa, cresce pelas cicatrizes no corpo
Para elevar o patamar do mundo.

Os bons poemas são túmulos de quem os escreve

Ano após ano, década após década, século após século
Mesmo que transformados em fósseis pela eternidade
Serão mais que os ossos que suportam um corpo
Mais que o cajado do pastor de rebanhos
E mais que o pastor
Quando este ainda levava os pensamentos ao campo
E no campo dava-lhes a forma de rebanhos
E alimentava-os de natureza e de tudo o que via.
Mas, quando o pastor morreu
O cajado partiu-se e o rebanho perdeu-se no campo.

Depois do movimento artificial do universo
Da matéria dos corpos, dos prédios, depois da pulsação da cidade
E da respiração do campo
O que foi vida, morte, o que foi apenas pensamento revelado
Agora, é só o cemitério de tudo o que foi

Agora, a eternidade toca-me a ponta dos dedos
E encontro por acaso o rebanho espalhado pelas folhas do livro.


Nota: para Fernando Pessoa (Alberto Caeiro) e para o seu "O Guardador de Rebanhos"

A simplicidade de um sentimento

Como poderia competir com as flores dos teus pretendentes
Com os seus beijos de veludo 
E com os seus versos açucarados. 
Não tenho palavras doces para te conquistar
Presentes para te oferecer
Nem dinheiro para te levar ao restaurante 
Onde, durante um jantar romântico
À luz trémula da minha voz em chamas
Diria que te amo.

E isto é apenas a ilusão da tua inocência 
Presa a estes versos que não vais ler
Porque no teu coração mora uma primavera campestre
Sem estação nos meus versos rudes e toscos
E os teus olhos não estão habituados a tanto cinzento
À cor das minhas construções citadinas 
Que parecem arruamentos complexos 
Com bancos de pedra que nascem voltados para jardins de cimento
Onde raramente te sentas
Com medo de perder a fantasia nos olhos. 

Mas, se viesses mais vezes 
Irias aprender a ler a minha paisagem
A simplicidade com que transforma tudo em natureza
E sentirias essa simplicidade como amplexo 
E que ela existe dentro de todos os homens
Camuflada por casas cinzentas
Com antenas de muitas cores a enfeitar os telhados
Que mais parecem poemas de amor.
Se percorresses mais vezes o meu pensamento
Irias aprender a ler a paisagem
A descobrir os meus versos toscos e rudes
E quando levantasses o véu que encobre esta realidade 
Encontrarias a simplicidade de um sentimento:

[Amor]

Esclarecimento

Se alguém percebe de alguma coisa, sou eu.
Falo com a mesma propriedade no pôr-do-sol de Marrocos
Como no pôr-do-sol da minha aldeia
E sei bem que são diferentes
Sendo que as diferenças são todas minhas.

É também assim que me vejo
Vaga sentença à espera de uma confirmação qualquer
Consciente que o meu entendimento sobre o sujeito
É tão vago como a percepção que tenho do mundo
Ciente que as minhas dúvidas 
São eus diferentes de mim
Vagamente esclarecidos sobre tudo aquilo que sou.