Caravelas azuis céu adentro

Desconheço as certezas que me atraem ao desconhecido.
Um movimento causa efeito no brilho desta dúvida circular
Não tenho esperança de me encontrar nas perguntas que guardo
E guardo-as religiosamente como segredos esquecidos no tempo.

Desacreditei teorias sobre a dor sem ter sofrido.
Vou em procissão levar toalhas quentes à angústia que me consome
E pelo caminho, idealizar a morte por baixo da terra
Por não acompanhar a gravidez das estrelas todos os dias 
Nem assistir ao seu parto anunciado com ardor fora dos olhos.

Esqueci-me de acreditar

Caravelas azuis céu adentro por dois mil anos
Tenho esperado o meu nascer para começar.
Na origem a indiferença onde me guardo sem ambições
Cai o lorpa na arcada por um abraço que ninguém me deu
Cresci e morei sempre à porta sem entrar
Com medo de pisar o mesmo chão, conhecer o padrão e ficar

Esqueçam-me todos, todos os dias em que não voltei
Esqueçam-me os lamentos e as ilusões que emprestei ao mundo
E afastem-me de vez quando chegar a falar de amor.
Esqueci-me de acreditar

Caravelas azuis céu adentro por dois mil anos
Elevam-se adagas e escudos pela morte de um imperador.
Desenhei um rio com margens e com corrente
Porque só quero uma vista para o Nilo, na tarde da minha derrota.

5 comentários:

Filipe Campos Melo disse...

Um poema confessional (isto é inscrito no intimo do Autor)
num todo reflexivo que não deixa o leitor indiferente

Retive em especial os versos iniciais

"Desconheço as certezas que me atraem ao desconhecido.
Um movimento causa efeito no brilho desta dúvida circular
Não tenho esperança de me encontrar nas perguntas que guardo
E guardo-as religiosamente como segredos esquecidos no tempo."

Que evidenciam a excelência da tua poesia

Abraço

Brígida Luz disse...

Boa tarde, Nuno.

A tua escrita situa-se num patamar superior,
tu sabes. Tal como sabes que a acompanho e admiro,
onde quer que a encontre, e nela sinto um mundo imenso
de inquietações
e de interrogações sobre o sentido da vida.

Soubera eu tecer considerações a condizer!

Agradeço-te a presença no meu pequeno blogue
e o apoio que dás à minha escrita (de principiante...)

Bom fim de semana. Um abraço :)

B. Luz

Suzete Brainer disse...

Sabes, amigo ler-te é um grande

exercício na aprendizagem do

caminho da poesia em sua

excelência,mas ainda é mais, é

supreender-se com o fascínio que

a tua escrita exerce,provocando

sentimentos profundos e

maravilhosamente inquietantes...

"Desconheço as certezas que me
atraem ao desconhecido.
Um movimento causa efeito no
brilho desta dúvida circular
Não tenho espernça de me
encontrar nas perguntas que
guardo
E guardo-a religiosamente
como segredos esquecidos
no tempo."

Bj.

Maria João Mendes disse...

Tenho esperado renascer para voltar a ser.
(mas sem acreditar)
Quando cair que a ultima coisa que veja, seja sagrada.

A tua poesia, é muito impressionante
Densa como os círculos que falas
(mas inspiradora)

Gosto sempre de te ler.
Beijo

Anónimo disse...

Que o teu Nilo surja no ocaso dessa tarde e nele a tua vista alcance a madrugada de um dia novo, feliz. Bem hajas pela tua partilha generosa.