Um lugar melhor

Do lugar de onde vim, o tempo afastou-me da morte  
No passado não posso morrer.
Os que para trás ficaram 
Os que apenas me olharam e nunca me sentiram
Podem pensar o infinito sobre quem fui e aquilo que dei
Ainda que presos à dúvida se terei mesmo existido
E se a memória que de mim guardam é real.

Calmaria

Dos teus brilhos, caminho meu
Podia dizer, se o sentisse
Que são jardins feitos de sol
Ou ondas em verde manto que o vento afaga
Podia perder-me, se quisesse
Nas formas distantes do tempo
E dar-me todo, tempestade

Mas os teus brilhos, olhos meus
São causas e efeitos, são calmaria
Por eles o tempo pára, eu bem sabia
São a pedra onde me sento
E turbilhão, sou tudo o que me devo

É nos teus brilhos que me perco
No simples olhar para uma flor
E não desejo, sequer procuro outro caminho
Deixo-me estar assim quieto
Até que a flor seja caminho e seja brilho
Até que seja, por fim, beleza
E inteira, tome conta da paisagem
E tome a paisagem, conta de mim.

Cada noite é um poço onde o dia vai matar a sede

No campo o dia é quente
E quente, trago a alma à realidade dos factos
O corpo, amarrotado de dormir, fica pendurado no roupeiro

Cada noite é um poço onde o dia vai matar a sede

No quarto a noite é fria
E frio, visto o corpo à imaginação do sono
Enquanto a alma vai fazer castelos na praia dos sonhos.

No tecto da imaginação faltam telhas à realidade
O céu, azul durante o dia ou constelado de noite
É oferta da alma para um corpo cansado de existir
E tudo é sonho na realidade que a vida veste
Quando se acorda para morrer.
No campo os dias são quentes
E frias, são as noites no meu quarto.

Poema que só quer ser

O poema não quer saber da poesia para nada
Nem do poeta que o escreve
Assim que nasce emancipa-se, corta os laços da filiação
E tenta encontrar um lugar no mundo
Visibilidade, espaço, com sorte, fama

O poeta erra ao querer defender o poema
Ao tomar-lhe as dores
Ao querer tutela-lo até ao último dia que vive
E depois, quando morre
O poeta espera que o poema lhe vá levar flores à campa
E que não deixe esquecerem-lhe o nome

O poeta erra por pretensão
Porque quer brilhar mais que o poema
Mas o poema, órfão por opção, não se importa
Pois sabe que não está nas mãos do poeta
Ser adoptado pelo mundo ou não.