De que vale escrever um poema de amor

De que vale escrever um poema de amor
Compor um chorrilho de enfeites
À mulher sensual, à noite perfeita
Às lágrimas da lua ou aos beijos de mel
Para cair na mesmice e no erro
Quando o poema sequer é sincero
Não com a mulher, não com a noite
Não com as lágrimas e nem com os beijos
Mas com a natureza do amor
Que é sentimento perfeito
Já o poema, não.

Haverá sempre outra musa
Outra noite, outras lágrimas, outros beijos compostos
Haverá sempre outro que escreva os enfeites
E outros chorrilhos com mais fingimento
Na falsidade das letras com que escreve o poema
Pois é sentimento imperfeito
Já o amor, não.

O amor, não é da musa nem da noite
Sequer do poema
O amor é de todos, é para todos
É sentimento perfeito
Já o do poeta, não
Logo, não o pode escrever.

Nas traseiras da minha casa

Nas traseiras da minha casa
Há um pedaço de terra mal-amanhado
Ao abandono, onde de forma natural
O mistério da vida é, facilmente, desvendado.

Este pequeno pedaço de terra, nas traseiras da minha casa
É o universo inteiro, inexplorado
E a querer-lhe mal ou bem, não há ninguém
Pois ele é virgem e intocado
Nele existe uma só mecânica que mantém a vida
E que respeita a mecânica anterior que a concebeu
Sendo esta a lei, única, a ser cumprida

Facto simples de confirmar
Ao olhar o fruto que se desprende da árvore e cai no chão
E fica ali, o tempo que lhe comporta a existência
A fazer adubo e a enriquecer a terra da sua mãe.

Repetição

Repetição… repetição…
A repetição é a forma de trabalhar do universo
Junta a tudo o que já existe, um pouco de movimento
E repete, outra vez, a repetição anterior

A todas as manhãs sucedem-se, repetidamente, tardes
A todas as tardes sucedem-se noites
E esta sucessão não é novidade para ninguém
Assim como não é novidade, o nascer do sol em cada dia

Mas cada nascer do sol tem também intenção
Um movimento com direcção, que impulsiona
E cria atrito, química e reacção
Tornando único o momento em que acontece
Em que a vida nasce com ele, toda ela acaso, instinto e forma  
Toda ela descoberta e novidade

Janela aberta para o sonho
Ampla visão da realidade
Desfocada entre a luz e a sombra, entre o dia e a noite
Entre uma hora e outra
Ambas criação, ambas ilusão
E lugares comuns onde tudo acontece.

Forma de cair

Não há outra forma de cair
Senão a forma que a vida mostra
Nem outra maneira de viver
Do que aquela que cair ensina
Quem isto entende, tem como endireitar as costas
Seguir e levantar a cabeça
E depois da queda, o momento em que ergue o corpo
É todo ele força, movimento e vida

Não se pode viver curvado
Com uma visão deformada das coisas
Abrir os olhos e acordar, é natural até morrer
Mas acordar não é viver
Nascer é estar vivo, até porque nascer todo o homem nasce
Só que estar vivo não é viver

Viver é movimento somado à vida, à existência
É atrito, sentimento, é uma química que acontece na alma
De alguém que cai e depois se levanta
E sem mágoa, cresce pelas cicatrizes no corpo
Para elevar o patamar do mundo.