Insónia

Insónia da minha alma.
Durmo no quarto da realidade de janela aberta
Sem descansar o pensamento, sem nunca desafinar as engrenagens
Para aliviar da mente o peso do corpo atirado ao sono.
...
Trago uma criança inquieta pela mão ainda por nascer
Que me arrasta o cansaço de um lado para o outro
Entre frenesins de porquês e horas que não sei responder


Trago uma criança inquieta sem ilusões à fila dos dias
Que recusa ser gente e tirar senha para viver
Que nega vez para crescer e ter consulta marcada
Ouvir doenças e diagnósticos de alguém estabelecido de alguém

Doutores formados, todos eles, alunos da minha vontade.
Ironia ser eu, o professor quando crescer.
...
Durmo na rua das minhas palavras sem me escrever
Sem nunca adormecer nos quartos desarrumados da mente
Onde, sem espaço, apenas descanso do tempo
A insónia da minha alma.

O mundo nasce hoje dentro de mim

O mundo não existe amanhã.
Não me lembro de ser eu
Sempre fui realidade a viver fora do corpo.

Estudei uma pauta para ser sistema e decorei-me
Quando acabei o curso sabia menos que uma criança
Fui doutor da minha ilusão e do estudo dos outros
E olhava para tudo sem ver, a imaginar amanhãs

Dentro dos rostos que conhecia, eram-me todos estranhos.

Quis ser quem não era, igual a muitos
Quis ser alguem e o que esperavam de mim e copiei-me
Estava vestido de humano, tão perto que podia tocar-me
Estiquei um braço e empurrei-me contra o mundo
Deitei-me aborrecido a ver-me cair e adormeci

O outro da minha realidade, doutor formado dele mesmo
Perdeu-se no sonho entre rebanhos de gente...
Quando acordei, doeu-me a verdade nos ossos e fiquei em casa
Quis levantar-me da cama mas não consegui
Quando olhei prá rua pela janela do quarto
O mundo estava vazio
E eu estava só.

Nunca mais serei quem fui
Desmascarei o tempo e o espaço, a ilusão
E o mundo nasce hoje dentro de mim.

“La folie”

Parece quase loucura, esta certeza de te querer
Revelar-te a inquietação que me causa ansiedade
Em palavras, em desejos e segredos por dizer
Qual beijo que sem tempo se guarda na saudade

Parece quase loucura, esta loucura de viver
Do mundo alienado em tão estranha realidade
E procurar, assim perdido, o momento de te ter
No qual te possa mostrar o que sinto de verdade

Parece quase loucura, a certeza que me faz querer
Este desejo que me tortura o corpo sem piedade
Que faz de mim pólvora, bala e arma, sem o saber
Pra matar esta distância que me mata de saudade.

Ensaio sobre gravidade

É nas pessoas que se conhece o mundo…
Às costas uma obra em ruínas
Pedregulhos e estilhaços de vidro
Que deixo na berma da estrada

Se a subida fica íngreme
Bebo vinho, cambaleio, sigo em frente   
Dêem-me o ópio da china
Para sair fora de mim

Conto pequenos dilemas em silêncio
Deixo os mortos para trás
Mais a dor ao abandono
Para aliviar o peso, porque ainda falta caminho

[É esta calma
Que me leva para ao fim]

As juntas já vertem diesel nas plantas
Porque a máquina tem folgas 
Paro na oficina do tempo, uma e outra vez
E espero por Newton

A vida é um alpendre invisível
Com tábuas que rangem aos passos
Espanta espíritos magnéticos
E cadeiras empoeiradas 
Com vista para um pomar de macieiras
Em desconto de fim de estação

É nas pessoas que sinto gravidade.


Costa Da Silva