O tempo faz destas coisas à vida

"Há já muito tempo que não escrevo um poema"
E não me tem feito falta alguma
Tenho acumulado, neste bloqueio de estro, dias vazios
Leveza nos ossos, espasmos no tempo e folhas em branco
E já são tantas
Que podiam causar-me diferença
Nos braços cruzados sobre a barriga à míngua de letras
Ou na fome de as escrever
Sobre qualquer coisa muito açucarada.

Quando o tédio da vida corre diabético nas veias
O melhor é não escrever indigestões
E adoptar uma dieta de versos.

"Há já muito tempo que não escrevo um poema"
Tenho acumulado folhas em branco
E dias vazios, imaculados
E são tantos
Que se os escrevesse agora, já fora de prazo
Tinha de joga-los no lixo com as letras amarrotadas
Impróprios ao consumo de quem têm muito apetite.
O tempo faz destas coisas à vida e ao poema também.

Isto não é uma despedida qualquer

Doeram-me mais tristezas
Do que dias tristes que tive
Doeram-me todos os dias
E todos os que tive, foram felizes.

Isto de ser feliz é um processo complicado e lento
A vida deve ser entendida como parte inteira da dor
Não existe dor sem vida
E do mesmo modo, não existe vida sem dor
E aceitar este facto é querer ser feliz.
…

Tenho visto muito
Aprendido mais
Tenho aceitado tudo
Quando faz calor, ponho-me ao sol e sabe-me bem
E penso, que a vida não é uma despedida qualquer.

Ontem ao contemplar o céu
Passou um pombo cinzento a voar 
Foi pousar no galho mais alto da árvore mais alta que havia no monte
E esta imagem tem mais valor do que aquilo que tentei aqui dizer.
Tudo na vida, assim como a vida, é sempre metade de algo...
Só me falta morrer para ser completo.

Ser grande é não ter tamanho

As pessoas podiam ser grandes
Deviam ser, sem reservas, maiores do que o corpo que vestem
As pessoas deviam ser grandes
E ser grande é não ter tamanho.

As pessoas compram casas grandes, paredes meias com o corpo
Para mostrarem que o seu corpo é grande
E pensam que isso é importante

Mas somos todos pequenos por fora
E o tamanho que as pessoas pensam que têm
É só o tamanho das coisas que mostram
E coisas assim têm a alma pequena.

As pessoas compram casas grandes
Porque não sabem, que são maiores que as casas que compram.

As pessoas podiam ser grandes
E ser grande, é não ter tamanho por dentro.

A segunda coisa mais estúpida do mundo

A segunda coisa mais estúpida do mundo é discutir com alguém por assuntos ou temas nos quais não acreditamos, além de ser uma tremenda perda de energia, reduz, ao tempo de vida útil no mundo de ambos os intervenientes, o tempo gasto na discussão, o que torna a segunda coisa mais estúpida do mundo, na coisa mais inútil do mundo.

Para que conste, a coisa mais estúpida do mundo, é o pensamento. Foi o pensamento, a coisa mais estúpida do mundo, que me levou à segunda coisa mais estúpida do mundo, a ideia exposta neste texto, que por sua vez, é a coisa mais inútil do mundo. O que me leva a pensar que estou a perder o meu tempo a escrever esta nota, também ela estúpida e inútil.