A coisa mais estúpida do mundo

A verdade, é que às vezes pela simples razão de dizer o que penso, sinto-me a pessoa mais estúpida do mundo. Por causa disto, outras vezes não o digo e, ao fazê-lo, sinto-me a pessoa mais estúpida do mundo, o que também é verdadeiro. De qualquer modo e para o efeito, é como se pensar e o simples processo de fazê-lo, fosse a coisa mais estúpida do mundo. Por esta razão, a de me sentir a pessoa mais estúpida do mundo, é que insisto na estupidez de continuar a pensar, e isto é simples e verdadeiro.

Metamorfose

É o meu pensamento que cria e oferece sentido aos dias.
Isto pode parecer uma ideia irracional e tola
Mas ao dia, sucede a noite e à noite, um novo dia 
E esta sucessão serve-me como prova, ainda que relativa.
Criei tudo o que foi criado e visto no mundo
E já imaginei tudo que ainda não se realizou
Se existe terra e mar, por exemplo
É porque moldei a terra e o mar em toda a extensão da mente
Sem nunca ter pisado nela, sem nunca me ter molhado nele
E nada ficou ao acaso, nada foi desconsiderado  
Pois sou deus, pensamento, senhor das limitações materiais.

O meu universo é uma totalidade cósmica acidental
Onde criei um mundo para morar igual à minha casa corpo
Porque o meu corpo é a minha casa
E nele existem pessoas que são pessoas crianças
Mágicas e eternas
Que conservam o dom da criação e imaginam mundos
Criativos e únicos como elas o são.

É a minha vida que dá vida ao mundo
Cada vez que abro os olhos
A vida transcende-me e permeia todos os mundos
Todas as pessoas
Tornando-me o deus das nossas limitações terrenas.
Metamorfose
Agora pensamento
Depois, existência.

Celebração

Existem dias que se colam à sola do sapato como merda de cão
Por mais que raspe com o pé no passeio
Que esfregue energicamente com a sola na relva do jardim do vizinho
O cheiro da merda paira onde quer que meta o nariz

Existem noites que parem o mesmo dia durante muitos dias.

Chuva de pedra e frio de gelo nos olhos defuntos
Vento nortada de passos sem norte que vêm para sul
Celebrar a festa dos mortos no dia do meu aniversário

Mesa posta, velas acesas e as cadeiras todas vazias
Só compareceu quem foi convidado, o único penetra, sou eu.
Existem dias que têm de ser celebrados todas as noites.

Dual

Não sou eu o que aqui escreve
É o outro, o real
O que agora me conduz o pensamento.
É outro que escreve aqui
O da ciência exacta da vida, o do materialismo concreto
Poeta dos poemas por escrever
Ele, o que queria ser e não existe.

Ele, é o outro, o que finge
É o que recebe o ordenado ao fim do mês
Que o obriga a fingir sorrisos o mês inteiro
E o meu pasmo por ele é grande
Põe-me espanto no pensamento
E gargalhada na voz
Mas, por maior que seja, por ele, o meu pasmo
É maior por mim o pasmo dele 
Pois o desejo de como eu ser, mas não ter coragem
É o engano de ser o outro e fingir.

Dual
Fuga e percepção.