A verdade, é que às vezes pela
simples razão de dizer o que penso, sinto-me a pessoa mais estúpida do mundo.
Por causa disto, outras vezes não o digo e, ao fazê-lo, sinto-me a pessoa mais
estúpida do mundo, o que também é verdadeiro. De qualquer modo e para o efeito,
é como se pensar e o simples processo de fazê-lo, fosse a coisa mais estúpida
do mundo. Por esta razão, a de me sentir a pessoa mais estúpida do mundo, é que
insisto na estupidez de continuar a pensar, e isto é simples e verdadeiro.
...Guardo nos olhos o que me mostraste com a clareza dos teus, a beleza dos dias, depois, a tranquilidade das noites e esta sucessão como único milagre da existência do tempo e como ordem real da natureza e dos homens...
Metamorfose
É o meu pensamento que
cria e oferece sentido aos dias.
Isto pode parecer uma
ideia irracional e tola
Mas ao dia, sucede a noite e à noite, um novo dia
E esta sucessão serve-me como prova, ainda que relativa.
E esta sucessão serve-me como prova, ainda que relativa.
Criei tudo o que foi criado e visto no mundo
E já imaginei tudo que ainda não se realizou
Se existe terra e mar, por exemplo
É porque moldei a terra e o mar em toda a extensão da mente
Sem nunca ter pisado nela, sem nunca me ter molhado nele
Sem nunca ter pisado nela, sem nunca me ter molhado nele
E nada ficou ao acaso, nada foi desconsiderado
Pois sou deus, pensamento, senhor das limitações materiais.
O meu universo é uma
totalidade cósmica acidental
Onde criei um mundo
para morar igual à minha casa corpo
Porque o meu corpo é a
minha casa
E nele existem pessoas que são pessoas crianças
Mágicas e
eternas
Que conservam o dom da
criação e imaginam mundos
Criativos e únicos como elas o são.
É a minha vida que dá vida
ao mundo
Cada vez que abro os
olhos
A vida transcende-me e
permeia todos os mundos
Todas as pessoas
Todas as pessoas
Tornando-me o deus das nossas limitações terrenas.
Metamorfose
Agora pensamento
Agora pensamento
Depois, existência.
Celebração
Existem dias que se colam à sola do
sapato como merda de cão
Por mais que raspe com o pé no
passeio
Que esfregue energicamente com a sola
na relva do jardim do vizinho
O cheiro da merda paira onde quer que
meta o nariz
Existem noites que parem o mesmo dia
durante muitos dias.
Chuva de pedra e frio de gelo nos
olhos defuntos
Vento nortada de passos sem norte que
vêm para sul
Celebrar a festa dos mortos no dia do
meu aniversário
Mesa posta, velas acesas e as
cadeiras todas vazias
Só compareceu quem foi convidado, o
único penetra, sou eu.
Existem dias que têm de ser
celebrados todas as noites.
Dual
Não sou eu o que aqui
escreve
É o outro, o real
O que agora me conduz o
pensamento.
É outro que escreve
aqui
O da ciência exacta da
vida, o do materialismo concreto
Poeta dos poemas por
escrever
Ele, o que queria ser e
não existe.
Ele, é o outro, o que
finge
É o que recebe o ordenado ao fim do
mês
Que o obriga a fingir
sorrisos o mês inteiro
E o meu pasmo por ele é
grande
Põe-me espanto no
pensamento
E gargalhada na voz
Mas, por maior que
seja, por ele, o meu pasmo
É maior por mim o pasmo
dele
Pois o desejo de como eu
ser, mas não ter coragem
É o engano de ser o outro
e fingir.
Dual
Fuga e percepção.
Fuga e percepção.
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