Casca de noz

Se soubesse escrever melhor os meus pensamentos
Se conseguisse traduzi-los em palavras
Acompanha-los sem entretanto perdê-los
Escreveria mais e certamente melhores poemas

Injustamente para a realidade do poema
Este conhece-me apenas da noz, a casca rude e dura
E quanto ao miolo do fruto, rico, nutrido
Fica todo para meu proveito
Só eu posso aprecia-lo, em puro acto egoísta 
Contemplar-lhe a forma, tocar-lhe a textura
Só eu posso imaginar-lhe o gosto antes de trazê-lo à boca
E nesta realidade minha faz-se justiça ao poema
Pois ao preparar-me para comer o fruto, deixo caí-lo no chão
Perdendo-o irremediavelmente
Para o imenso abismo que separa
O pensamento de qualquer acção

Se soubesse escrever melhor
Se conseguisse acompanhar os meus pensamentos
Traria à realidade do poema
Todo o espanto que neles e em mim habita. 

Sempre que penso

Sempre que penso pensar em mim
Construo uma casa grande para lá morar
Cheia de coisas belas e móveis castanhos envernizados
Que falta me fazem quando me penso pensamento

No fim, quando lhe ponho as cortinas nas janelas
Uma carpete com motivos no chão da sala
Quando torno a casa confortável e acolhedora
Não me vem vontade de morar nela.

Eu, que de real sou apenas hipótese
Antecâmara perceptiva e abstracta
Onde me gero esboço robusto, pau para qualquer obra pensada
E, se a vertente pender à duvida
Viverei o que vivo ou vivo o que irei viver?
Estudo-me, analiso-me e antecipo o momento, todos eles

Mas, o pensamento cansa-me de tanto o pensar cansado
Cansado da casa e dos acabamentos cuidados
Cansado da importância dos pormenores
Cansado de lhe dar liberdade, aprisionando-me pensamento
Então, o tamanho da casa grande torna-se pequeno
E o motivo da carpete deixa de ter um motivo.

O pensamento acabado e final, é cansaço e prisão
É a casa onde me ponho à janela a ver-me aqui
E aborrecido, perco a vontade de morar nela.

Paisagem

Amanhece o dia calmo e a calma em mim
O sol nasce e cai desfeito na encosta
Os ramos das árvores fingem um movimento artístico e suave
Acho que estão a fazer vontade ao vento
E a pôr sombras no chão e isto fica-lhes bem

Já o manto é verde e o verde do manto de vários verdes
E vejo-os a todos como um só manto
E tudo na paisagem se compõe em equilíbrio
Tudo na natureza se compõe e tudo se equilibra
E podia ser puro até
Se eu não estivesse aqui, também a fazer paisagem.

De que vale escrever um poema de amor

De que vale escrever um poema de amor
Compor um chorrilho de enfeites
À mulher sensual, à noite perfeita
Às lágrimas da lua ou aos beijos de mel
Para cair na mesmice e no erro
Quando o poema sequer é sincero
Não com a mulher, não com a noite
Não com as lágrimas e nem com os beijos
Mas com a natureza do amor
Que é sentimento perfeito
Já o poema, não.

Haverá sempre outra musa
Outra noite, outras lágrimas, outros beijos compostos
Haverá sempre outro que escreva os enfeites
E outros chorrilhos com mais fingimento
Na falsidade das letras com que escreve o poema
Pois é sentimento imperfeito
Já o amor, não.

O amor, não é da musa nem da noite
Sequer do poema
O amor é de todos, é para todos
É sentimento perfeito
Já o do poeta, não
Logo, não o pode escrever.