“La folie”

Parece quase loucura, esta certeza de te querer
Revelar-te a inquietação que me causa ansiedade
Em palavras, em desejos e segredos por dizer
Qual beijo que sem tempo se guarda na saudade

Parece quase loucura, esta loucura de viver
Do mundo alienado em tão estranha realidade
E procurar, assim perdido, o momento de te ter
No qual te possa mostrar o que sinto de verdade

Parece quase loucura, a certeza que me faz querer
Este desejo que me tortura o corpo sem piedade
Que faz de mim pólvora, bala e arma, sem o saber
Pra matar esta distância que me mata de saudade.

Ensaio sobre gravidade

É nas pessoas que se conhece o mundo…
Às costas uma obra em ruínas
Pedregulhos e estilhaços de vidro
Que deixo na berma da estrada

Se a subida fica íngreme
Bebo vinho, cambaleio, sigo em frente   
Dêem-me o ópio da china
Para sair fora de mim

Conto pequenos dilemas em silêncio
Deixo os mortos para trás
Mais a dor ao abandono
Para aliviar o peso, porque ainda falta caminho

[É esta calma
Que me leva para ao fim]

As juntas já vertem diesel nas plantas
Porque a máquina tem folgas 
Paro na oficina do tempo, uma e outra vez
E espero por Newton

A vida é um alpendre invisível
Com tábuas que rangem aos passos
Espanta espíritos magnéticos
E cadeiras empoeiradas 
Com vista para um pomar de macieiras
Em desconto de fim de estação

É nas pessoas que sinto gravidade.


Costa Da Silva  

Em tudo um nada

Alimentar uma essência especial
Talvez uma luz
Interna à matriz que edifica o espírito
Que desfaz o ser.

Desacreditar o que os olhos vêem
O que o corpo sente
Para num passo chegar à verdade.

Ser em tudo com a mesma verdade que se é em nada
Ser tudo com a consciência que se é nada
E incorporar esta condição de existir e viver
Para entender a realidade

Para acordar sem nunca adormecer
Para viver sem nunca viver
Para morrer sem nunca morrer.

Mecânica universal descodificada

?

Longe, como algo por dizer, quem sabe amanhã se ouça.
Pedestais partidos, a jornada de lendas entregues à ilusão
Ao objectivo de se projectarem perfeitas, e no entanto nuas

Ténues visões, elas podem recordar, imaginar, quase sentir
São vultos, imagens que desejam, como ninguém, o mundo
No sonho, presas à teia, só porque sabem reproduzir a noite
Multiplicar o dia, mas não sabem esquecer, sem receio.
…
Eu esqueci-me de tudo, relógios parados na minha voz
Não mais falarei de tempo
E quanta beleza há, apenas, num agora para sempre

Esqueci-me de tudo, mecânica universal descodificada 
Não mais julgarei o mundo
E quanta verdade há, apenas, em ama-lo incondicionalmente
…
Perto, como algo por fazer, quem sabe amanhã aconteça.
Vultos, imagens que amam como ninguém, somente imagens
Na cela do medo, vivem o sonho e prolongam assim a ilusão.