Quantas gaivotas sobrevoaram os meus pensamentos

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Agora o mar. não o mar dos petroleiros que passam ao largo
Nem dos barcos de pesca ancorados no cais
Mas o mar, aquele da minha memória.

Quantas gaivotas sobrevoaram os meus pensamentos.

Aquele riso salgado na boca. Aquele mar
A lua e os reflexos prateados nos olhos
Que doiam de tanto olhar.

Quantas ondas morreram na praia desde esse mar
Até aos meus cabelos brancos de hoje.
Quantas gaivotas voltaram aos meus pensamentos.

Agora a vida. Esse mar, a sua imensidão, as suas correntes
Todo ele ficará para sempre, mergulhado no meu esquecimento.

Escrevo poemas no olhar das pessoas

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Escrevo poemas no olhar das pessoas.
Diz-me o copo que levas à boca
Que a força é mais uma dor por sentir

E o corpo quer-se assim anestesiado [omisso no tempo.

Segreda-me o cigarro que queima entre os dedos
Os dias são repetições anunciadas
Derrotas sobre derrotas, no peito acumuladas

E o futuro é um déjà vu por acontecer.

Mostram-me os olhos o cansaço impresso na alma
Páginas de vida ou uma resma de folhas em branco
Onde, são outros que ditam o que podes escrever
[o que deves viver.

Escrevo poemas no olhar das pessoas.
E querem-te o corpo assim anestesiado [omisso da luta
Porque o futuro é mais um déjà vu por acontecer.

O que é contemplar, senão olhar com o pensamento

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O que é contemplar, senão olhar com o pensamento.
Bater com as íris em todas as cores de um jardim
E senti-las, depois de entrarem no corpo e percorrê-lo por dentro
Nas terminações do meu cérebro, a construírem a paisagem por inteiro

E ter essa paisagem, misturada com a realidade das minhas sensações
Em texturas, em cheiros e em sons [como extensões da natureza
A reagir, energicamente, nos poros da pele.

Contemplar, é um dia de domingo no jardim, até ao pôr-do-sol
E senti-lo, absorvendo-lhe a energia, sem ter mais nada para fazer
Senão olhar com o pensamento.

A dor vestirá outras lágrimas

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Os sentimentos acabarão por encontrar abrigo noutras rosas
E perpetuar o sol sobre todos os jardins da Primavera.
A dor humedecida vestirá outras lágrimas
Marcará outras faces nos dias cinzentos, como diamante em bruto.

Nas folhas amarelecidas pelo tempo, ficarão as histórias
Os lugares comuns em que me perdi e encontrei
Mas onde nunca fui inteiro.

No término da força, no findar do pavio que alimenta a chama
O corpo acabará por cair e regressar à sua essência
Sem olhar para trás, a alma seguirá pela estrada da eternidade.

Reclamarei a herança da terra fria que me pertence.
Da vida, deixarei um legado de indiferença
Onde a maior desilusão que enfrentei, fui eu

Sempre estranho por fora, sempre distante por dentro
Sempre reflexo de labirínticos espelhos.