A árvore da vida

A árvore da vida do mundo 
Vive nas traseiras da minha casa 
E sou dela o seu guardião 

A verdadeira árvore da vida 
Cresceu forte, alta e frutuosa 
No meio do meu quintal 

E de maneira natural 
Sem nada pedir em troca 
Oferece tudo o que tem para dar 

Dá frutos sumarentos na época deles 
Flor de laranjeira muito aromática 
E os pássaros gostam de vir poisar 
Na sua ramagem nos dias de sol 

Olhando para o meu quintal 
Vejo nele o mundo inteiro 
Nao o mundo como ele é, real 
Mas como ele devia ser 
Do lado de fora do meu quintal. 

É possível ler a paisagem

A linguagem da terra é simples
É possível descodificar o prodígio da natureza
Apenas ao ler a paisagem
E espalhar no mundo a paz desta conquista

Mas, há o espelho que faz guerra à realidade
E, se reflecte ao mundo a minha imagem
Que sendo parte, também é ego e fera e falha
Traz à tona um ser que não tem alma

É possível ler, em silêncio, a paisagem
Calar o ego, acalmar a fera sem quebrar o espelho
E assim trazer de volta ao peito a natureza
E o prodígio renasce, devolvendo-me ao corpo a alma.


Império

Império só. Embrenho no mistério desse reino longínquo, impossível de conquistar.
Este mistério é o manto com que deus se cobre de noite para não ter frio enquanto dorme, deitado na relva do seu jardim. Porque deus é tudo o que existe entre a terra e o céu.
Vago reino impenetrável de candeias acesas em procissão. Marcha lentissima que enfeita de luzes o céu e de ilusão a minha alma, roubando-a para a segurança dos seus portões.
Sinto, imaginando-o, como a única realidade de o sentir. E se por ventura consigo senti-lo real, sinto-o por fora da alma, como se tivesse outro corpo. Porque este reino de mistério é ilusão e a minha alma, real.


Realidade às avessas

Quando a imperfeição é a realidade, não existe nela a consciência da sua própria imperfeição. Quando, numa realidade imperfeita, surge algo para a aperfeiçoar ou corrigir, parecerá sempre que esse algo é um erro, imperfeito e irreal.