Poema e chuva

Enquanto, lá fora, chove despropositadamente
Tento escrever, nesta folha, um poema com muito propósito
Que seja algo mais que a explanação do pensamento
Mais que a resistência e que o atrito dos labirintos da mente
Tento escrever um poema que venha de dentro
E se cumpra inteiro, morrendo nos olhos de quem o lê

Se eu o escrever corpo, vida e cor
E me sentar à porta a olhar para ele
Será poema em tudo o que existe
Em tudo o que vejo, puro e livre, e aceito porque me é dado.
Sempre que o céu se curvar e tocar a terra
Por meio de brilho e chuva a salpicar as pedras
Desprender-se-á de mim sem choro e sem dor
Todo ele paisagem, perfeição e paz
Porque sendo céu, não é terra, e sendo terra, não é céu
Um equilíbrio que é bom de ver, sem que precise de pensar nele.
Ter-se-á então cumprido ao morrer-me nos olhos
Nascendo, sem esforço, no momento seguinte
Também ele, poema e chuva.

Perspectiva

Perspectiva
E visão
Metáfora onde me escrevo, circular e infinito
Mas por agora, sem espaço
Nas prateleiras eternas da existência de tudo.

De todos os momentos, tão iguais na razão de tempo
Traduzidos em vários pontos, como marcas feitas na vida
Escolho aquele, onde estanca e se aquieta o pensamento
E se alarga a alma, estendendo-se, por um plano sem medida

A previsão
Do tempo que falta
Ao tempo que me falta
É não saber o quanto, nem querer saber
Sabendo, que todo o tempo, depois do tempo
É meu, na minha inexistência


[...]

Debruçado sobre a janela

Debruçado sobre a janela, atento na natureza
E na simplicidade com que ela se manifesta em todos os momentos
Com a expressão de que existe, sem esforço, em si mesma
E isto é algo que me encanta quando o consigo realizar.

Tenho lugar sentado à janela do sonho
Passageiro oculto em viagem com vista para o tempo
O destino é além do campo e da visão, quando não há destino
Onde todos os pontos são pontos de encontro
Sem lugar específico e em todos os lugares
Sem forma definida e em todas as formas
Onde mentes se tocam num vácuo absoluto e vagaroso
E experimentam a totalidade do universo na universalidade do amor

Sou permeável como uma nuvem e nada absorvo
Nada me condiciona a forma
Apenas vejo e aceito a imagem do mundo que vejo
Como se apresenta, tantas vezes carregado e denso
Então, sem pensar, dispenso tudo o que vi
Sem me demorar em tempestades
Chovo tudo, com ligeireza, para o chão.

A realidade é uma farsa
O mundo gira e passa pela anarquia dos sentidos
E como o sentimos
Aquilo que aparenta ser
É na verdade um pouco menos de tudo
E muito mais de nada
Mas é sempre o mesmo, quer a janela esteja meia aberta
Quer esteja, meia janela fechada.

O plano

Têm-me dito, já muitas vezes
Que ando à deriva, que não sei o que quero fazer da vida
E que ando cá apenas a ver os comboios passar
Isto porque não tenho um plano ou um projecto para concretizar
Em resumo, têm-me dito, com convicção, que falhei
E que falhei com o acerto com que falha gente grande
(Falho comigo por falhar com o futuro)

Acho que só para andar por cá, deslumbrado como um menino
A experimentar o mundo, a ver beleza e novidade em tudo
Sem pensar amanhãs e futuros programados
Já valeu a pena ter nascido, chorado e aberto os olhos
E ter a consciência desta realidade
Vale mais que qualquer projecto de qualquer vida de sucesso

E há coisa melhor do que ver os comboios passar
Vê-los seguir com a vida toda que carregam dentro deles
E saber, sentindo, que tal como os comboios que passam
Também eu passo e levo a vida toda dentro de mim
E sigo leve e sem esforço pelo caminho da vida
Como seguem os comboios pelos carris
Até ao dia em que, por não conseguir continuar, irei parar
E o mundo terá de seguir sozinho
Porque o meu corpo, é só mais uma estação.

Se é estranho isto que digo
É porque a vida, é o que quero dela com o coração.
Ao falhar comigo, dispenso a obrigação de me cumprir
Ao falhar com o futuro, permito-me a não fazer planos
E realizo-me, assim, em cada momento que estou consciente.
Hoje,
Hoje,
É este o plano.