Imaginador

E por não te ver, não me perco a imaginar-te.
Paisagem distante, pensamento também distante
Que por ser longínquo, nada é aqui
E nele, nada sou, senão a névoa que o envolve.

Porto imaginário onde se apronta um barco cheio de si
Sem tripulantes nem passageiros
Ilusão da consciência de ser barco e de existir
De real, nada é e nele sou nada ao leme
Cansado da viagem que não fiz
Com saudade da terra de onde ainda não parti.

Não sou mais que um projecto prestes a deixar o papel
Com a consciência futura da obra feita
E esta frase dói-me como se me arrancassem a pele
Expondo a ruína toda que está por baixo.

Só a verdade liberta a dor, mesmo que doa.
Liberto-me dos conceitos, dos preconceitos
Permito-me não ser a consciência colada ao nome
À pessoa por quem me conheço
Ao meu reflexo no espelho
Para ir além do sonho e viver

Navega à deriva barco de pele
Sente a angústia de perder o vento
E sem porto, ou amarra de corpo quente
No fim, naufragas, também em pensamento.

Castelo de areia

Castelo de areia ou pedaço de praia
Rebentação ou onda do mar
Destruição ou renovação existencial

Tudo o que de algo se forma é só pensamento
E eu, de longe, sentado a olhar para ele
Com o apreço que se tem a um irmão
Que por ser meu, quero-lhe bem

Vou só comprar cigarros e volto já
Isto é o que a minha vida disse à morte
Ao sair de casa, tudo é ânsia e vontade de fumar
Mas o caminho é um prado de muitos verdes 
E, sem pressa, perco-me a olhar para ele
A sua forma e as suas cores, não passam de pensamentos
E o tempo que me demoro, não dura mais do que uma estação     

Mente ou quintal da consciência 
Eu ou o sopro da humanidade

Redenção 
A beleza das coisas é uma janela aberta para o infinito


[...]

O destino não é o cais

Mar…
O destino não é o cais
O destino mar, é o barco
Pois que o cais é de chegada e é de partida
É tão destino como é origem
Só o barco, por vontade ou por impossibilidade, pode ficar
E tu mar, tu és a vida
E eu, viagem.

Se o mar não tiver ondas, ainda assim é mar
Mas as ondas, por si mesmas não existem.
A onda é destino, viagem
Manifestação de uma entidade que a própria desconhece
E do instante em que se afirma onda
Não é mais nada, até se desfazer de novo em mar
Depois, mesmo sendo da mesma água, já outra onda
É, para ela, a primeira vez que é onda e viagem.

Mar…
O destino não é a praia
O destino mar, é a onda
E tu, tu és a vida
E eu viagem.

Lembrar-me da chuva não chega

A chuva nasce na pele da terra
Que nasceu no umbigo do universo
Que nasce na menina dos meus olhos
E de repente, isto é tudo o que me lembro.

Já andei à chuva muitas vezes e molhei-me sempre
E molhar-me sempre que chove é o propósito de andar à chuva
É forma de comunicar e sentir
É como ouvir com atenção a história de alguém que já viveu muito.
Molhar-me, é uma conversa íntima entre a chuva e a minha pele
E aquilo que a chuva me conta deve ser bom de aprender
Pois que a sensação não incomoda, nem é de frio
Mas é antes de calor e conforto de um abraço maternal

E de repente, dá-me saudades do beijo da minha mãe
E lembrar-me da chuva não chega
Ouvi-la bater contra o vidro é pouco
Vê-la cair é querer mais
E tenho que sair para a rua e senti-la na pele.

Para conhecer o mundo de verdade
Preciso misturar os sentidos com a realidade
E sentir a existência e o sentido de tudo
E fazê-lo, é uma forma de amar a natureza.