Ah, o que é um poema que eu escreva


Ah, o que é um poema que eu escreva
Senão uma imagem desfocada, um desenho desigual
Daquilo que os olhos vêem e constroem
Na aparência leve e bela de tudo o que há no mundo
Um mundo que não sinto, mas escrevo sendo real.

Encontro enganos no horizonte ao querer ver coisas de perto
Falsos jardins, falsas cores, falsos desertos
Processo cheiros e sons, alterados por falsas sensações.

Há um sonho que me leva mais além até outras realidades
São vontades e gritos de êxtase em tardes de verão
São heróis e vilões, são escravos das luzes das ruas de Cincinnati
A embalarem noites inteiras nas cordas de um violão.

Toma-me o fim e volto a ti com memórias de quem já foi
De quem não lembro ver partir, só por sofrer e ter sonhado
Mas se sofri, não encontro marcas nem lágrimas dessa dor
Nem por fora, nem por dentro
Ah, e por dentro, por dentro este vazio
Esta distância que diz coragem para cumprir o meu destino.

O nada como princípio já me conforta.
Perdi horas, dias e noites, perdi amanhãs e tenho tempo
De um lado tenho jardins com aromas de muitas flores
Do outro, uma fábrica de texturas e de cores, de gelados de mil sabores
Tenho tempo de chegar lá e descobrir, de voltar antes de partir

Vale-me a graça de olhar o sol no céu e cerrar os olhos
De sentir calor na pele e envelhecer sem rugas
O ontem, o hoje e o amanhã, momentos fundidos num só momento
Abraçado a ninguém num agora que teima e que não passa.

Ah, o que é um poema que eu escreva
Senão um desenho desigual, daquilo que os olhos vêem
Uma imagem desfocada de coisas leves e belas  
Mas que destrói tudo por dentro e mata sem que se veja.

Não há vida que me alegre
Nem morte que me entristeça
Não tenho como certo, um corpo que me pese
Nem uma alma que o eleve e que o preencha.

Fico quieto sobre as pernas só por ficar
Como andarilho que ninguém quer
Não tenho fome nem tenho sede porque não sinto
E já não tenho frio nem calor na pele para me vestir e ando nu

É um refúgio de indiferença e uma forma de liberdade
Sem forma onde enformar esta tristeza e realizar um sonho  
De forma a formatar velhos caminhos
Ir de rua em beco sem saída e sem sentido

Ir e percorrer o tempo através da matéria de todos os lugares
Não parar, não desistir, isto, enquanto me lembrar  
Enquanto reconhecer esta água, esta terra, este fogo e este ar
Mesmo que seja na aparência de um querer, qual mistério. 
Levo-me a percorrer o tempo,  sendo o criador de mim mesmo    
A fecundar a carne, a parir o ser e a recriar o mundo todos os dias.

O resto, os vazios que me transformam por dentro
São variantes da realidade e infinitas possibilidades de morrer
São mundos que trago comigo ainda por preencher.

3 comentários:

Maria João Mendes disse...

E o que é um poema senão aquilo que tanto desejamos?
Que queríamos mas que só temos em sonhos?
E que é um poema senão partes quebradas de nós
Que tentamos reconstruir?ou construir?

Adorei este poema.
Beijo

Filipe Campos Melo disse...

O verso cria o mundo
que o poema recria, como memória

Assim "percorrendo o tempo através da matéria de todos os lugares"

Talvez porque a poesia
"São variantes da realidade e infinitas possibilidades de morrer
São mundos ... por preencher."


A tua poesia tem sempre espaços profundamente marcados
a nostalgia
a melancolia
o sonho
a queda
a dor


Sim este poema é teu,
em ti escrito

Sempre bom te ler

Abraço

Suzete Brainer disse...

"AH,O QUE É UM POEMA QUE EU

ESCREVA"

É um poema que nos penetra, numa

dor que lateja nos ossos,refeletem

na alma,desnuda as palavras de um

significado aparente e as vestem

de um sentido maior,que

poeticamente nos sangra,arranha em

profundidade.E por fim, nos deixa

lavados,leves em lágrimas de

contemplação...

E digo-te,quero sempre,percorrer

esse teu caminho poético:"São

variantes da realidade e infinitas

possibilidades de morrer"

renascendo a cada leitura,a cada

poema...

Adorei, amigo!!

Bj.